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Opinião: Há aí algum professor?

14 de às 11h37
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1 – Leio na comunicação social: faltam 1.200 professores em Portugal. Faltam 4.000 professores na abertura do ano letivo em França. Alemanha, Itália e Suécia debatem- se com falta de professores. Para reduzir o deficit de professores nos Estados Unidos será necessário recrutar cerca de 300.000 novos docentes. No Canadá governo procura soluções para a falta de professores. Poderia continuar este rosário de dificuldades, a que já me referi em anos anteriores, mas fico mesmo por aqui. Sei que muitos dirão que com a desgraça dos outros podem eles bem, que o fundamental é resolver os problemas da casa.
2 – Recordo que em abril último, a Unesco alertava os governos para a crise global de falta de professores. A agência para a educação das Nações Unidas alertou para a necessidade de se encontrarem 69 milhões de professores no mundo. Sem professores qualificados não será possível atingir a meta de um ensino básico universal até 2030. Como não basta chutar as pedras para os docentes qualificados aparecerem e porque os erros cometidos no passado não têm remissão, apontem se as causas e busquem se as soluções.
3 – As razões não são únicas nem as mesmas em todos os países. Uma dessas razões é claramente universal: as más políticas na formação de recursos humanos quando toda a gente acreditou (eu me confesso…) que a diminuição da população, logo a diminuição de alunos escolarizados, iria corresponder a salas dos professores menos ocupadas. Direi que universal é também a perda de prestígio social da profissão, os baixos salários, as turmas difíceis, o clima de agressividade em muitos estabelecimentos de ensino, as cargas curriculares elevadas, falta de outros profissionais que acompanhem os estudantes em áreas como a psicologia ou o acompanhamento social, as tarefa administrativas de que os professores se viram titulares. Acrescento as reformas, com milhares na lista de espera para deixarem a atividade. Entre nós, nos últimos anos, na abertura dos cursos do ensino superior, as vagas para a formação de professores foram praticamente todas preenchidas, o que é um ótimo sintoma. Mas com efeitos a prazo! Urge que o governo (este ou outro) faça o seu trabalho de casa, acompanhe este movimento de aparente interesse pela profissão e crie condições para fixar em toda a rede escolar o número necessário de profissionais. Ouvi esta semana o ministro João Costa dizer que pretende o governo apoiar os docentes deslocados com a instalação em casas com rendas especiais. É pouco, mas é alguma coisa e algo que nenhum ministro tinha tentado. Vamos à contagem integral do tempo de serviço, senhor primeiro-ministro. Assim seja!
4 – Mas, para já e nos anos mais próximos têm de ser encontradas soluções que não deixem milhares de alunos a gozarem de “feriados”. Illo tempore, muitos docentes iniciaram o seu trabalho possuindo o bacharelato. Mais tarde concluíram a licenciatura, fizeram as cinco disciplinas de ciências pedagógicas que eram obrigatórias para poderem entrar no estágio de dois ou de um ano, conforme a época em que o realizaram. Os estágios pedagógicos eram realizados ao fim de vários anos de exercício da profissão e não há notícia de que tenham os alunos ficado menos bem preparados por esse facto. Eis porque é tempo de chamar à docência pessoas com habilitação académica adequada às disciplinas que irão dar, garantindo que o estágio pedagógico com qualidade virá depois, mas num curto lapso de tempo. Esta forma de encarar o momento em que a falta de professores em Portugal é notória não é mero revivalismo da minha parte, é tão-só a convicção de que deve ser esse o caminho a seguir nos tempos que correm.
5 – E aqui chegamos nós ao magno problema dos concursos para colocação de professores. O concurso nacional foi uma peça essencial para terminar com algum amiguismo que os diretores usavam em tempos que já vão longe. O próprio facto de ter aumentado a escolaridade obrigatória, esticada até ao 12º ano, representou um aumento significativo de alunos no sistema, com as escolas consequentemente cheias e a natural necessidade de professores. Era, pois, possível que as deslocações de docentes fossem relativamente curtas e muitos ficassem perto de casa. Não servindo de exemplo o meu caso, as deslocações mais longas que tive de fazer foram para a Marinha Grande( 84 quilómetro de ida e outros tantos de volta) e para Estarreja( 80 quilómetros de ida e outros tantos de volta), sempre sem autoestradas que só se vislumbravam ainda. Entretanto os anos correram, muita coisa mudou na profissão e o atual estado da arte é insatisfatório para os alunos e para os professores. Devendo a escola ter a função de elevador social, o que aconteceu nos ano da pandemia e nos subsequentes traz como principais prejudicados os alunos no seu todo, mas sobretudo os que são originários dos estratos sociais e económicos com mais carências. Enquanto alguns têm sempre por perto recursos que custam dinheiro, mas colmatam dificuldades, outros há para quem Escola Pública é o único recurso ao seu alcance. A Escola Pública tem de merecer a confiança que lhe é devida e urge ser defendida e estar aberta a todos, mas mesmo a todos. A Escola Pública não pode ser posta em causa, seja por que razões forem, sob pena de deixar de cumprir o que lhe é pedido pela sociedade.
6 – Chegaram os caloiros! Eles aí estão, atravancando ruas ,”apalpando” a cidade, correndo para a compra do traje académico que nos primeiros tempos lhe provoca uma atrapalhação para perceberem como se deve usar a capa… Boa sorte para todos.

Pode ler a opinião na edição impressa e digital do DIÁRIO AS BEIRAS

 

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