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Opinião: (in)Cultura

16 de às 13h09
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Para Adorno apenas a alta cultura, a esforçadamente aprendida e dolorosamente construída, é fonte de autenticidade e de dorida felicidade. Adorno, na linha da estética hegeliana, registava o melancólico fim de um tempo, o da modernidade elitista, em que a arte se acantonava nas belas artes e em que o “belo”, inconsumível, permanecia intolerante ao mercado.
Adorno não se deu conta que a democratização e massificação da cultura, central no pensamento antielitista da Bauhaus e da Escola de Frankfurt, daria o golpe de misericórdia na cultura erudita.
A Bauhaus é, assim, pioneira do irresistível movimento de ascensão estética da cultura popular, e do seu alcandorar a um estatuto de igualdade simbólica com a cultura erudita. A norma estética passa a ser a da absoluta indistinção hierárquica entre economia e estética, moda e arte, divertimento e cultura, comercial e artístico, alta cultura e cultura de massas.
E inaugura, por outro lado, o processo de harmonização entre a produção industrial e a cultura.
O funcionalismo da Bauhaus, além de conciliar valor artístico, utilidade funcional e fabricação industrial, estilhaça as confinadas, rígidas e tradicionais fronteiras da noção de Arte.
Doravante, assistimos a um crescimento tumoral do conceito, que passa a incluir o design industrial, as artes úteis, as artes decorativas, as artes aplicadas, as modas, as imagens publicitárias, a música ligeira, pop, rap e de dança, o cinema, a fotografia, os videojogos, a manga, a BD, a literatura de aeroporto, a indústria da televisão.
Roger Scruton, em pose mais quixotesca que conservadora, resiste à inclusão no campo artístico da fotografia, do cinema, da televisão, da música gravada, da cultura pop em geral.
A fotografia, em particular quando regista esteticamente o sofrimento humano, decai em obscenidade e corrupção moral.
O cinema industrial da “fábrica de sonhos”, por outro lado, não é objeto de revisitações, contrariamente ao que acontece com o romance, a poesia, o teatro, a ópera. Apenas o cinema de autor, falecido nos anos 70, escapa ao anátema, na precisa medida em que, na verdade, não é cinema, mas poético exercício de lentidão. Antonioni e Visconti, Bresson e Dreyer, Erice e Oliveira, Ozu e Kurosawa, entre outros, são pintores e romancistas da imagem. E salvam, nessa medida, a sua cidadania na república das artes.
A televisão, fábrica de solidão e ecrã de incomunicação, além de liquidar qualquer possibilidade de participação democrática (Popper), anestesia qualquer pulsão inconformista, por overdoses de pornografia sentimental e de violência.
Música e livros, por outro lado, são objetos lisos, despojados de intensidade e de profundidade, com pura função distrativa: analgésicos ou opióides da alma.
Encontramo-nos na idade da cultura pop de massas, jovial e juvenil, marcada por um registo anestético, onde, na leitura de Byung-Chul Han, o “belo” se apaga e soçobra no “Gosto/Like” consumível.
E no tempo em que a filosofia, a religião, a estética, a arte e a poesia perderam o estatuto de “descodificadores” privilegiados do mundo e da vida.
No tempo, enfim, de uma arte de consumo de massas que, não requerendo nenhuma aprendizagem, nenhuma competência especializada, nenhuma pertença cultural particular, mais não é que uma arte sem cultura.

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