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Opinião: Inflação. Alimento-me, só se puder

06 de às 10h20
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Lucros excessivos, escassez de produto na origem, dependência extrema de outros mercados? O que será?
O INE (Instituto Nacional de Estatística) estima que a taxa de inflação para o mês de Fevereiro tenha desacelerado para os 8,2%. Segundo a mesma entidade, se excluirmos os produtos alimentares não transformados e os produtos energéticos, a inflação é de 7,21%. Olhemos em concreto para os produtos alimentares: 20%. Sim, 20%. Há produtos alimentares que à presente data registam aumentos de quase 140% face ao período homólogo. Se não fica difícil de acreditar, pois a nossa carteira sente-o diariamente, fica seguramente difícil de justificar. Para dificultar ainda mais a nossa capacidade de perceber o que justifica tais aumentos, apesar da inflação portuguesa estar a um nível próximo do da zona Euro, nos alimentos desviamo-nos, e para nosso mal, para o pior lado da balança. Comparando os dez bens e serviços em que a subida de preços registada em Portugal no último ano foi maior, quando comparada com o resto da zona euro, oito são produtos alimentares.
Utilizando os valores divulgados pela DECO Proteste para a evolução dos preços do cabaz de produtos essenciais (onde por questões óbvias os produtos alimentares são figuras principais), cabaz esse definido com base na estrutura de consumo das famílias do INE, percebemos que entre 02 de Março do ano transacto e 01 de Março do presente ano o referido cabaz passou de 185,17€ para 230,38€. Um aumento de 45,21€ – 24,42% mais caro no prazo de um ano.
Frutas, legumes, lacticínios, peixe e carne. Alimentos não transformados. Se é aqui que é registado o maior dos aumentos, escusado será dizer que toda a cadeia de fornecimento é afectada. Foi esta a opinião que partilhei neste mesmo espaço de opinião em Janeiro e é infelizmente o que tenho que reforçar agora. A esta data, a cadeia de fornecimento continua a transmitir-nos, a nós indústria transformadora, mais aumentos que diminuições de preço. Mais ainda: transmitem-nos cada vez mais frequentemente a inexistência de stock´s disponíveis para garantir os necessários fornecimentos.
Estes aumentos assumem contornos de crueldade por incidirem nos mais essenciais dos bens. Sim, porque se há bens essenciais, há uns mais essenciais que outros e a alimentação é a essência da vida, e afecta todos de igual forma. Nas famílias Portuguesas de menores rendimentos, estes aumentos começam a fazer a diferença entre poder comprar ou não, poder comer ou não.
Voltemos ao início: E o que é que justifica que tal aconteça? Aparentemente ninguém sabe muito bem. Pandemia, guerra, elevados custos de exploração, fracas colheitas, excesso da procura nacional ou externa e aproveitamento. Sim, concordo com tudo isto. E o que é que pode ou deve ser feito? Encarecer o preço do dinheiro para reduzir o consumo, tributar os lucros excessivos e fiscalizar mais intensamente os pontos de venda ao consumidor final? Empresas a pagar mais pelas suas dívidas aos bancos ajuda a baixar preços? O que é que define lucro excessivo? Como é que definimos os sectores que não podem cometer excessos? A banca, que tanto recorreu ao dinheiro dos contribuintes, pode? A ASAE está no terreno a promover fiscalizações mais apertadas nos pontos de venda do sector alimentar, mas a fiscalizar o quê? Comunicação clara ao consumidor e diferenças nos preços de prateleira e caixa? Parece-me insuficiente. Enquanto consumidor, deixa saudades o tempo em que se fiscalizava o dumping.
Urge perceber o que é que a nossa governação pretende fazer. Comida no prato em Portugal não pode ser um luxo. É uma necessidade que tem de ser acessível a todos.

*Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve
segundo o novo Acordo Ortográfico.

 

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