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Opinião: Inteligência artificial e ignorância natural

20 de às 16h03
5 comentário(s)

O fascínio pelas máquinas é antigo. Do homem-máquina de Descartes aos Mensch-Maschinen dos Kraftwerk vai um pulo de breves séculos. Há muito que não queremos ser o reflexo carnal de um padrão divino. Ao arquétipo transcendental preferimos o mimetismo da vida mecânica.

Sacrificamos o homem sagrado ao homem roldana. Aos nervos, tendões, veias, linfa e neurónios, preferimos as correias, os parafusos, os veios, as transmissões elétricas, a CPU.

Stanley Kubrick, antes de todos, em 2001: A Space Odyssey, inventou o vingativo e caprichoso computador sentimental, esse inesquecível HAL, nemesis de astronautas em busca de um regresso a um primevo calor maternal.

As humildes calculadoras de há décadas fazem figura de parentela pobre ao lado das super máquinas digitais do pobre tempo presente.

Se a vida no que realmente importa fosse uma competição de rapidez de cálculo, melhor, se a vida fosse cálculo puro, capacidade de correlação lógica e outras vanidades do género, então deveríamos abandonar o reino do homem ao prodigioso universo numérico.

Acontece que viver não é calcular. Acontece que pensar não é estabelecer correlações lógicas. Acontece que existir no mundo da vida não é respirar algoritmos.

A deificação iluminista do admirável novo mundo digital traduz uma profundíssima ignorância da natureza humana.

As máquinas podem simular o amor. Mas são incapazes de amar. As máquinas não se apaixonam, não sofrem, não odeiam, ignoram a traição e a compaixão.

As máquinas desconhecem a intensa comunicação relacional do mundo vegetal. E estão a anos luz da quietude orgânica do vivente mundo mineral.

Não deixa de ser motivo de espanto, em todo o caso, a infinita ignorância dos sacerdotes do digital. Desconhecem que o inconsciente freudiano é estranho a cérebros mecânicos. Fazem tábua rasa do estado da arte da biologia e das neurociências contemporâneas. Ignoram, por altivez numérica ou por estupidez natural, que o cérebro humano, ou o de um asno, ou o de uma formiga, ou o de uma centopeia, é infinitamente mais complexo que o de qualquer maquinaria computacional.

Porque as máquinas, ainda que quânticas – celeste adjetivo – não fazem a menor das ideias do que seja ter olhos para ver, nariz para cheirar, pele para tocar, ouvidos para escutar, coração para amar.

As máquinas não sabem nada do viver humano. Das experiências, das raízes comovidas, das falhas, das exaltações, dos fracassos. Da dor. Da perda. Do abandono. Do breve encontro. Do longo adeus. Da vontade de terra. Da vontade de céu. Da vontade de nada. Da vontade de tudo.

As máquinas são menos que insetos. As máquinas são menos que calhaus. As máquinas são menos que cardos.
Só as slots machines e as jukeboxes têm direito a partilhar os mundos das nossas vidas. Porque nós fazem felizes.

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5 Comentários

  1. S. V. Loureno diz:

    Artigo igualmente muito interessante. Contudo, e de novo, são várias as possibilidades de argumentação a favor e contra o que foi aduzido no artigo de opinião.

    Referências fundamentais no assunto (os que não têm hiperligação terá mesmo que adquirir se estiver interessado em ler):
    1.Searle, J., 1984, Minds, Brains and Science, Cambridge, MA: Harvard University Press.
    2.Bishop, M. & Preston, J., 2002, Views into the Chinese Room: New Essays on Searle and Artificial Intelligence, Oxford, UK: Oxford University Press. (infra, hiperligação de um dos capítulos):
    Fwww.andrew.cmu.edu%2Fuser%2Fkk3n%2F80-300%2Fpreston2002.pdf&usg=AOvVaw3vbOWAzwcvicYKXxWKLcZq” target=”_blank”>https://www.google.com/url?sa=t&rct=j&q=&…” target=”_blank”>Fwww.andrew.cmu.edu%2Fuser%2Fkk3n%2F80-300%2Fpreston2002.pdf&usg=AOvVaw3vbOWAzwcvicYKXxWKLcZq

    3.Lucas, J. R., 1964, “Minds, Machines, and Gödel,” in Minds and Machines, A. R. Anderson, ed., Prentice-Hall, NJ: Prentice-Hall, pp. 43–59.
    4.Dreyfus, H., 1972, What Computers Can’t Do, Cambridge, MA: MIT Press.
    5.Dreyfus, H., 1992, What Computers Still Can’t Do, Cambridge, MA: MIT Press.
    6.Kurzweil, R., 2006, The Singularity Is Near: When Humans Transcend Biology, New York, NY: Penguin USA.
    7.Kurzweil, R., 2000, The Age of Spiritual Machines: When Computers Exceed Human Intelligence, New York, NY: Penguin USA.
    8.Joy, W., 2000, “Why the Future Doesn’t Need Us,” Wired 8.4. https://www.wired.com/2000/04/joy-2/

  2. S.V. Loureno diz:

    Referências interessantes no assunto:
    1.Knappett, Carl & Malafouris, Lambros (eds.) (2007). Material Agency: Towards a Non-Anthropocentric Approach. Springer.
    2.Boden, Margaret A. (1977). Artificial Intelligence and Natural Man. New York: Branch Line.

    Referência de uma posição mais extremada no assunto com convergência em alguns pontos com o exposto no artigo de opinião :
    1.Setzer, Valdemar W. (2021). A.I.: Artificial Intelligence or Automated Imbecility? Can machines think and feel?. Independently published.

  3. S. V. Loureno diz:

    Referência útil, possivelmente ao gosto de muitos, de onde se extraem os parágrafos infra apresentados:
    1.Lowe, E. J. (2008). Personal agency: the metaphysics of mind and action. New York: Oxford University Press.

    “According to my non-Cartesian substance dualism, human persons—that is, human agents, for persons are necessarily also agents—are ‘individual substances’ of a distinct and irreducible kind.”

    “I maintain that substances, rather than events, are the possessors of causal powers and liabilities and that a substance causes an event by exercising its causal powers. In my view, event causation may and should be analysed in terms of this prior notion of substance causation. Personal agency, then, is a special case of substance causation—persons being substances of a distinctive kind, with distinctive existence and identity conditions and a characteristic range of causal powers and liabilities. Persons are, however, unlike inanimate and non-conscious agents in possessing rational powers, the exercise of which is involved in episodes of free voluntary action. The events that are the effects of the exercise of such powers do not have sufficient causes, in the event-causation sense, at times prior to the exercise of those powers, nor do they even have their chances of occurrence entirely fixed by events at such prior times. And yet these effects are not arbitrary or incompletely explicable, for they are at least in part explicable in terms of the agent’s reasons for action. An implication of this picture of free agency is that the domain of physical events is not completely closed under the relation of event causation but, properly understood, this should not be seen as incompatible with any legitimate claim of the physical sciences.”

  4. S. V. Loureno diz:

    Para visões literárias e fílmicas menos pessimistas e extremadas a contrapor ao filme 2001: A Space Odyssey, de 1968, produzido e realizado por Stanley Kubrick, com argumento do próprio Stanley Kubrick mas baseado no conto breve de ficção científica da autoria de Arthur C. Clarke, publicado em 1951 com o título The Sentinel and other short stories:
    1.The Positronic Man, romance de 1992, escrito por Isaac Asimov e Robert Silverberg, baseado na novela de Isaac Asimov de 1976, com o título The Bicentennial Man and Other Stories.
    https://archive.org/details/positronicman00asim
    https://archive.org/details/bicentennialmano0000a

    2.Bicentennial Man, filme de 1999, realizado por Chris Columbus, com a participação de Robin McLaurin Williams e outros actores.
    https://www.youtube.com/watch?v=6K2J3D0hTKY

  5. S. V. Loureno diz:

    Como escrevem e muito bem os Srs. Selmer Bringsjord e Naveen Sundar Govindarajulu, para já o que se poderá afirmar com certeza é o seguinte: “No doubt the future holds not only ever-smarter machines, but new arguments pro and con on the question of whether this progress can reach the human level that Descartes declared to be unreachable.”.

    Para uma lista exaustiva de referências úteis, o seguinte artigo de onde foi extraído o parágrafo supra apresentado:

    Bringsjord, Selmer and Naveen Sundar Govindarajulu, "Artificial Intelligence", The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Fall 2022 Edition), Edward N. Zalta & Uri Nodelman (eds.), URL = &lt ;https://plato.stanford.edu/archives/fall2022/entries/artificial-intelligence/>.

    Há que saber acomodar de forma saudável a incerteza. A humildade epistémica é uma virtude, não um vício. Esta asserção é, agora, e será, no futuro, muito promissora para a relação entre agentes humanos e não humanos. A humildade epistémica requer também muito esforço, muito trabalho.

    Cordiais cumprimentos.

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