Geralopiniao

Opinião: Intelligentsia gastronómica

29 de às 11h23
0 comentário(s)

É verdade, temos uma intelligentsia gastronómica que ajuda a que o estudo, a investigação, a inovação e a promoção levem, pela mão, a gastronomia portuguesa por caminhos de desenvolvimento económico e enriquecimento cultural. Pessoas e instituições que se interessam pelo modo como receitas e produtos são trampolim para a valorização da cultura gastronómica portuguesa. Mas também é muito verdade que temos, não direi uma pseudo-intelligentsia, pois que nem isso chega a ser, mas um grupo de pessoas que, utilizando descaradamente o melhor que a nossa cultura tem, vendem sonhos ao desbarato a instituições públicas e privadas, fazendo do palco que a gastronomia oferece uma arena de disputas e espetáculos nem sempre com conteúdo.
É claro que tudo acrescenta, umas bem, outras mal, tudo junto cria mancha, cria ambiente, mas nem sempre da melhor maneira. Muitas vezes é só o ruído de quem quer vender um sonho maior, melhor, mais bonito, mais ruidoso, do que o outro. É mais o atalho atabalhoado do que o caminho pensado de forma estratégica. E, na verdade, todos poem as mãos à cabeça. Uns por desespero, outros por satisfação. Os que não sabem como, procuram. Os que já descobriram como, exploram.
E o discurso é o do sorriso pepsodent a falar, pela rama, de coisas sérias. O marketing ajuda a vender não o que é, mas o que parece. Tenho ideia de que, nos últimos tempos, a gastronomia é, em si mesma, discurso publicitário corrente. A dita autenticidade é difícil de encontrar sendo produzida entre cenários de tocar o coração, mas que apenas existem em estúdios de imagem. É a roupagem do discurso bem-falante.
É a pedra de toque das palavras que se sabem ter consequência. Algumas das instituições e pessoas que por aí andam, fazem-me lembrar aquelas farmacêuticas que, iam aos povos indígenas buscar os segredos das plantas e depois ganhavam milhões, nada dando em troca a quem com eles partilhava a riqueza do saber.
A mim, seduz-me a intelligentsia gastronómica, o estudo e a ação que fazem a diferença, os sonhos que se constroem, a prática que se conquista. Isso sim dá-me a adrenalina que me alegra. Tive a sorte a vontade de participar em alguns. Pena tenho que, muito do que por aí vejo, de coerente e estrutural pouco ou nada tenha.
São imagens avulsas que respondem ao chamamento hertziano que liga a gastronomia a uma tendência. Mais do que um sonho a ser vendido em banca de feira, a gastronomia portuguesa merece o culto de ser parte de nós, do antigo ao moderno, do individual ao coletivo, do estômago ao cérebro.

Autoria de:

Deixe o seu Comentário

O seu email não vai ser publicado. Os requisitos obrigatórios estão identificados com (*).


Geral

opiniao