Opinião: Liderança digital, analógica e imobilista
O líder é, ipsis verbis, a pessoa que agrega um conjunto de pessoas, em qualquer âmbito profissional, e cujas principais características são: visão e pensamento estratégico, habilidade de comunicação, flexibilidade de adaptação, determinação e procura constante da excelência. Exige-se ao líder sobretudo uma conexão, uma perspetiva e a definição de uma trajetória, inserida numa abordagem zoom out/zoom in da organização que dirige. Espera-se igualmente do líder uma orientação ética e positiva, de forma a motivar toda a equipa (empresa, escola, instituição, cooperativa, por exemplo) que pensa e age à sua volta. A liderança, em termos gerais, pode ser autocrática ou democrática. A primeira é característica de um líder centralizador, que não delega as tarefas e as decisões, assumindo todo o processo decisional sozinho, mas, quando surgem problemas, não assume qualquer responsabilidade, porque não reconhece nada, nem quer assumir o risco. O líder democrático, além de delegar tarefas, toma decisões em grupo, assumindo deste modo o papel de facilitador do processo. Complementarmente, o líder deve ter uma dicção correta, saber expressar-se de forma harmoniosa e coerente, exercitar a empatia, ter uma perspetiva do futuro para se antecipar a problemas e propor soluções, ou seja, um líder nunca pode ser um conservador fundamentalista, mas, de preferência, um provocador. Tendo em conta esta axiomática geral e a realidade atual de tecido empresarial português, propõe-se uma categorização mais atual, mas imbuída dos conceitos e atributos já expostos, identificando os líderes como digitais, analógicos e imobilistas, enfoque que reflete uma abordagem diferente, e que está, segundo se pensa, mais de acordo com a era da digitalização e da inteligência artificial. De facto, nas organizações digitais, o saber está em todo o lado, e a transformação do negócio e a agregação de valor podem ser gerados por qualquer pessoa que trabalhe na organização. Ou seja, o líder digital é parte integrante de um ecossistema sem níveis hierárquicos ou estrutura, que não tem centralidade, porque depende de cada um para o alimentar de nutrientes e expandir as suas conexões. O líder digital não vai tomar todas as decisões, mas deve fomentar a auto-organização e a autogestão. Adicionalmente, não se deve preocupar por não ter sempre razão, mas deve estar aberto às formas de partilha e compromisso no trabalho e abraçar o futuro incerto. Ou seja, um líder digital, além de democrático, deve correr riscos, porque a vida é um constante fluir. Os responsáveis empresariais da era digital devem ajustar rapidamente os seus objetivos estratégicos, tendo em conta os dados (datasets) existentes e o poder computacional atual. O líder digital define as trajetórias futuras em termos probabilísticos, tendo em conta que a tomada de decisão é um alvo em movimento e, a todo o momento, é importante monitorizar os pressupostos da tomada da decisão e proceder, com novas informações, à sua reavaliação com novas informações.
O líder analógico, por enquanto o mais comum, foi formado num contexto essencialmente darwiniano. É um gestor que luta por uma quota de mercado, adotando um comportamento agressivo e implacável, associado a uma mentalidade de ganhar através de sucessivas reduções de custos. Ainda pensam (não todos) que o valor de um líder é definido pela posição na hierarquia e pelo título. A disponibilidade de dados, o trabalho em equipa, os algoritmos e a inteligência artificial não são considerados como variáveis principais pelo líder analógico, que, genericamente, se distancia da equipa, troca informações só quando é necessário, além de ser lento no processo de tomada da decisão. Complementarmente, processa a informação de forma analógica, com base em padrões e associações, tendo subjacente uma argumentação de natureza indutiva, adotando, em relação ao futuro, uma visão determinística. Este tipo de líder orienta a empresa de uma maneira prospetiva, mas não deixa de ser um líder democrático, ainda que com atributos diferentes do líder digital.
Os dois tipos de líderes, anteriormente referidos, acreditam que podem moldar o futuro, gerindo uma multiplicidade de fatores, aos quais podem ou não associar probabilidades ou construir cenários. Em contrapartida, o líder imobilista acredita convictamente que o futuro é o presente e uma mera reprodução estatística do passado, é, por isso, dificilmente reciclável mesmo integrado em programas de formação continua direcionados a Phd que, há muito, apesar da sua juventude, deixaram de se considerar in manufacturing process.


