Opinião: Magnificat
A particular devoção à mãe de Jesus tem atravessado de forma perene a história do Cristianismo. O imenso respeito que lhe dedicam os evangelistas é particularmente digno de nota, não só pelo contexto cultural coevo de subordinação das mulheres, como sobretudo pelo imenso contraste com a descrição frequentemente pouco benevolente para com os apóstolos. Esta devoção tem atravessado também a história portuguesa, desde a consagração sistemática a Santa Maria das primeiras catedrais portuguesas (a Sé Velha de Coimbra, em particular, é dedicada precisamente a Nossa Senhora da Assunção) à sua elevação a Rainha de Portugal por D. João IV, transparecendo de forma bem visível na contemporaneidade através dos imensos peregrinos que rumam a Fátima.
Esta particular consideração transparece também na oração quotidiana da Igreja, estruturada na chamada “Liturgia das Horas” e, em particular, na oração dita de “Vésperas”. Esta é realizada ao fim da tarde e marca, segundo a tradição judaica, o fim do dia de trabalho e o início do dia seguinte. Ora esta oração de Vésperas, em que se sucede a recitação de salmos e leituras bíblicas, tem um ponto culminante na recitação ou canto do “Magnificat”. Trata-se de um poema atribuído a Maria por S. Lucas, no seu Evangelho, por ocasião da visita a sua prima Isabel. Trata-se de um extraordinário cântico de louvor da misericórdia divina, iniciando com a frase “A minha alma glorifica o Senhor” (Magnificat anima mea Dominum, na tradução latina) e prosseguindo com um caderno de encargos bem significativo: “ Dispersou os soberbos. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias.”
Assim, mesmo para os não crentes, o (recentemente celebrado) feriado de 15 de Agosto oferece excelentes oportunidades para um banho não apenas de mar e sol, mas também em alguns dos aspetos mais extraordinários da contribuição cristã para a cultura humanista, a começar pela rejeição da lei do mais forte e pela atenção aos mais fracos (os “humildes”, os “famintos”).
Não espanta, por isso, que este poema tenha conhecido o desvelo de quantos o têm rezado, meditado e, sobretudo, cantado, ao longo dos séculos. Conforme assinalava Agostinho de Hipona, “quem canta reza duas vezes”. Quer as vésperas em geral, quer o Magnificat em particular, têm inspirado a gerações de compositores algumas das obras cimeiras da cultura ocidental. Assim, o leitor que esteja por Coimbra talvez possa aproveitar para (re)visitar a Sé Velha e se maravilhar com o magnífico retábulo mor, consagrado à Assunção da Virgem Maria, da autoria de Olivier de Gand e de Jean d’Ypres; ou ir à Igreja do Seminário Maior contemplar, sob a mesma temática, os frescos da cúpula, de Pascoal Parente. Se preferir relaxar fugindo às incertezas meteorológicas, talvez queira ouvir o Magnificat de Bach ou o “Magnificat em Talha Dourada” de Eurico Carrapatoso. Ou ainda, parando um pouco mais, as vésperas de Nossa Senhora de Monteverdi ou as de João de Sousa Carvalho.


