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Opinião: Mais do mesmo

05 de às 10h31
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Tenho um apontamento prometido sobre gatos e outro pensado sobre abelhas, já há bastante tempo. Mas a conjuntura atropela-me o planeamento. Por sorte acredito em coincidências, caso não começava a ter restrições ao que escrevo.
Isto porque no último texto deixei um repto aos poderes autárquicos, muito especificamente a Coimbra, para plantarem árvores. Plantarem como se não houvesse amanhã. Em resposta – eu sei que não foi em resposta– deu-se uma calamidade arborícola, um autêntico dendrocausto na cidade. Muitas dezenas de árvores abatidas, mais de uma centena. Em várias ruas. Pela cidade fora.
Sim, eu sei, plantaram ou vão plantar outras tantas. Mas isto das árvores não é como outros «equipamentos» urbanos. Demora. A árvore urbana tem várias funções mas, neste caso, vamo-nos concentrar numa, providenciar sombra. E com essa sombra, em união com as outras árvores no enfiamento da rua, diminuir a temperatura, proporcionar ilhas de sombra dentro da verdadeira ilha de calor que são as cidades. Ora essa função não se recupera com a plantação. A chamada substituição é uma falácia. Seria como verificar que um banco de jardim estava degradado e em risco de se partir, decidir retirá-lo e encomendar outro. Mas o fornecedor demora, neste caso, duas a três décadas a entregar o banco novo. Então qual seria a solução, se o objectivo fosse manter a função do banco sem interrupção de décadas? Encomendar um novo e restaurar o existente.Tentar que esse banco degradado, com intervenções de restauro e segurança, pudesse continuar a proporcionar assento enquanto o fornecedor do novo concluisse a entrega. É que plantar uma árvore é encomendar uma sombra para o futuro.
Sim, os argumentos utilizados prendem-se com o risco para a segurança colectiva. As árvores encontram-se maltratadas por erros antigos – era relevante verificar se foram erros negligentes ou dolosos, pois que alertas para as má-práticas não faltaram. Podas mal feitas, caldeiras inexistentes (com asfalto até ao tronco), etc, etc. Obviamente que se compreende (exige, até) a preocupação com a segurança. Mas, da análise dos documentos disponibilizados, não se vislumbra resposta a uma pergunta, é possível manter o exemplar até que a árvore «encomendada» tenha condições para efectuar a substituição?… Com apoios, com tirantes, com alguma forma, como se verifica noutros lugares. Não há resposta porque a pergunta não é feita. A pergunta não é feita porque a árvore urbana é encarada com ligeireza, sem lhe dar a relevância que tem e que terá mais e mais.
Seria necessário o abate? Vamos, para efeitos de discussão, aceitar a sua premência. Mas e o resto? A intervenção que contrarie os efeitos que causaram este descalabro, invocados nos documentos técnicos? Intervenções de recuperação de caldeiras? Formação aos agentes que fizeram as podas destrutivas? A «encomenda» de sombras futuras?…
Ironia das ironias, o abate foi financiado por fundos destinados à adaptação às alterações climáticas…
Em Coimbra nada de novo.

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