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Opinião: Maria de Lourdes Modesto

29 de às 12h47
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É costume dizer que somos fruto das circunstâncias, num lugar-comum mais que batido que explica os nossos sucessos e fracassos. Para mim, é mais importante pensar no que somos capazes de fazer para além das circunstâncias. Aí estamos a falar de seres humanos extraordinários que se revelam pelo que conseguem e mudam para além do tempo que lhes calhou. É esse o caso de Maria de Lourdes Modesto (MLM).
Não terá sido fortuita a sua ligação à cozinha, mas também não terá sido uma vocação como hoje acontece com tanta gente que vê na gastronomia um modo de vida. Mas foi decisivo o caminho que traçou, não para si, mas para Portugal e para a sua identidade gastronómica. É certo que, desde finais do século XIX, se vinha traçando o perfil da cozinha portuguesa e das suas várias expressões ou sotaques regionais. Há obras maravilhosas que nos mostram essas pronúncias que exprimem a multiplicidade de cada receita, mas MLM deu organização e visibilidade a essa abrangência. E dedicou-se de alma e coração a tal empresa.
Imagino que, pelo caminho, terá tido as suas dúvidas, os seus medos e anseios. Mas não deixou de tentar e de seguir a sua intuição em função do que considerava correto tendo em conta a sua ambição, mais do que a sua opinião. Se MLM merece todos os tributos do mundo será muito mais pela forma como se deixou deslumbrar pela plenitude da cozinha nacional e se abriu a essa riqueza, do que pelas certezas que julgamos que tenha tido. Sim, terá o seu espírito sempre crítico e assertivo que lhe permitiu um percurso deveras marcante para todos os que trabalham na e pela gastronomia portuguesa. Mesmo em idade já avançada, nunca perdeu esse olhar cristalino e essa visão aberta ao tema gastronómico.
Não gosto de endeusamentos. Afirmo-o já à partida. Acredito que, mais do que figurarem num pedestal, todos os grandes seres humanos são degraus seguros no longo fio da humanidade. Degraus seguros porque nos fazem avançar, porque nos deixam subir para ver o horizonte e respirar mais forte, porque nos deixam recuperar do fôlego que necessitamos. Os grandes, raramente, nos deixam quase a cair à beira do degrau. E é assim que eu gosto de ver MLM, um degrau seguro, alguém que, com um espírito tanto generoso como frontal, nos mostrou uma outra maneira de ver a cozinha nacional.
Endeusar cristaliza e esconde os pés de barro. Muito melhor será usar o legado. Mas usá-lo como MLM o faria. Não cair na tentação de ver a verdade fixa e absoluta, mas pegar nessa verdade e usá-la para o bem da humanidade, para o futuro e sucesso da gastronomia portuguesa. Escolher bem as palavras, direcionar bem a ação e descobrir todo o humanismo que a obra de MLM tem e fazer dele degrau para vidas melhores. Sim, tenho a certeza de que MLM iria adorar muito mais a ação crítica e útil cheia de futuro, do que a reverência cega ao que o passado nos deu. Esse já lá está e ninguém nos tira, o futuro é que temos de construir. Sim, tenho a certeza de que MLM iria ficar muito feliz.

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