Opinião: “Matérias-primas críticas para a UE (#3 ). Uma mina no nosso bolso”
Na continuação dos artigos, já publicados, sobre matérias-primas críticas para a Europa, refletiremos hoje sobre o smartphone.
O último relatório da Strategy Analytics, publicado no passado mês de junho de 2021, estimou que 50% da população mundial, possuía um destes aparelhos que encerram em si mesmo uma mini mina de matérias-primas, algumas delas críticas para a União Europeia.
No caso das matérias-primas não críticas que se encontram nestes equipamentos eletrónicos, estas devem ser consideradas como matérias-primas secundárias com possibilidade de incorporação no ciclo de vida destes ou de outros produtos, cita-se a este propósito a Engenheira Química e Phd em Economia Dambisa Moyo que na sua obra “A China e a corrida aos recursos. O vencedor leva tudo”, publicada em 2012, afirma de forma gráfica que “… a soma total de todos os telemóveis a uso, descontinuados ou fora de circulação nos EUA, em 2005, foi equivalente à quantidade de metal existente em 50 aviões Boeing 747. E estamos a falar dos EUA, num só ano, numa altura em que os telemóveis ainda estavam numa fase de relativa infância.”.
Outro exemplo é apresentado pela Associação, Minerals Council of Australia, que menciona na sua publicação “30 Things Mining”, que uma tonelada de smartphones rende mais ouro do que uma tonelada de minério de ouro. Refira-se a propósito deste mineral que o programa de reciclagem da empresa tecnológica Apple recuperou, em 2015 quase uma tonelada de ouro através do robot Daisy que consegue desmontar até 200 telemóveis, desta marca, por hora.
Mas voltemos às matérias-primas críticas para a Europa que muitos de nós carregamos nos bolsos diariamente e que atualmente, muitas delas, são mais valiosas do que o ouro no mercado das commodities.
Dos mais de 40 metais e terras raras que são usadas para produzir um único smartphone, encontramos, entre outras, as seguintes matérias primas críticas para a União Europeia: o tântalo e o tungsténio, nos componentes eletrónicos; o lítio, o cobalto e o alumínio nas baterias; o gálio, o índio e o germânio, no écran; a bastnasita, o neodium e o boro nos altifalantes.
A listagem de todas as matérias-primas críticas para a europa em 2020, as suas cadeias de valor as cadeias comerciais europeias e mundiais, os seus preços e a volatilidade dos mesmos, bem como a produção mundial de cada matéria-prima crítica pode ser vista na publicação “Study on the EU’s list of Critical Raw Material ( 2020 )” da Comissão Europeia.
Chegados aqui, facilmente se depreende que não serão somente os smartphones que contêm matérias-primas crítica para a Europa e não críticas estes e outros materiais, outros resíduos de equipamentos elétricos e eletrónicos (REEE) conterão em maior ou menor quantidade.
Estamos assim perante a cada vez maior necessidade de olhar para os resíduos de equipamentos elétricos e eletrónicos ou e-waste, produzidos em Portugal, não como mera sucata da qual só se aproveita o material menos valioso e mais rapidamente vendável como matéria prima secundária, mas como uma verdadeira fração de uma mina urbana (urban minning) que nos rodeia e com a qual interagimos todos os dias em quase todos os momentos.
Não poderei concluir sem partilhar com o leitor o local onde muito do e-waste mundial se encontra em condições criminosas quer para o meio ambiente quer para a saúde pública, refiro-me à cidade de Agbogbloshie em Accra, no Gana.
Visione-se o documentário THE WORLDS BIGGEST E-WASTE SITE, em https://www.youtube.com/watch?v=aDjDGrrDD7o, para que quando houver necessidade de descartar um equipamento elétrico ou eletrónico, sem o encaminhar corretamente para operador licenciado, se pense duas vezes.


