Opinião: Mudar a Profissão
Em finais de setembro soube com muito interesse que a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC) pretende reformular a oferta educativa do 2º e 3º ciclos de estudo. Presumo que pretenderá também abranger formações em Educação e Ensino, o que bem preciso é.
As Escolas Superiores de Educação também o fazem, com reconhecido êxito. Daí eu esperar com interesse as alterações que possam surgir e se elas atingem a vertente da formação de professores.
Vem agora o Ministério da Educação apresentar as suas propostas que, do que leio, não agradam às organizações sindicais.
Não sei exatamente o que distancia ministério de sindicatos, mas a proposta oficial vai beber muito ao que aconteceu anos a fio e que muita gente desconhecerá. Uma boa parte dos professores (aponta se para 80% no tempo do ministro Veiga Simão) lecionavam apenas com habilitação científica (Bacharelato ou licenciatura, como tais formações se entendiam à época) e só bastante depois faziam a sua formação pedagógica.
Eu sei que os tempos são outros, que a complexidade das mudanças do mundo de hoje torna cada vez mais difícil o rumo que deve ser seguido na formação inicial e contínua dos professores. Estes não devem nem podem ser apenas peritos na sua área de conhecimentos, mas têm de dominar as novas tecnologias e as questões culturais e sociais que enquadram o mundo de hoje.
Há alguns anos que se fala da necessidade de repensar a formação de professores.
Todavia, nada se alterará no sistema educativo em Portugal se não se lutar contra o progressivo descrédito que a profissão foi acumulando, com sucessivos governos a pouco ou nada fazerem para chamarem à profissão os necessários novos professores. Por muito que as instituições de ensino superior trabalhem, quase nada se alterará se os governos persistirem em olhar para a Educação como parente bastardo dos grandes problemas do país.
Mas continuando a arrastar se a presente briga entre ministério e professores, com o aumento da rudeza e do populismo da linguagem que está a ser usada e que não é um bom exemplo para os alunos e para a democracia, por muito que os partidos entrem na corrida com simpáticas proposta para os professores recuperarem o merecido tempo de serviço que, a crer nas contas do ministério das Finanças, custará qualquer coisa como 331 milhões de euros por ano, muita gente evitará a profissão e muita outra sairá logo que lhe for possível.
A questão da formação de professores é um problema de natureza científica e quase nada sindical, pelo que seria bom que o Ministério desse a conhecer quem foram os peritos em formação de docentes que elaboraram as propostas. Aguardemos.
Mas se a nível central as coisas estão como estão e como se sabe, ao nível local outras vão mexendo e criando alguma expectativa positiva. Veja-se o caso da autarquia de Montemor-o-Velho que está a investir 2,2 milhões de euros para o ano letivo que corre, nomeadamente na requalificação de edifícios. Parabéns!
E aí está o primeiro centro de tecnologias digitais e criativas – o TUMO. Até que ponto podemos acreditar que a escola do futuro TAMBÉM passa por aí?
Sendo inquestionável que não podemos ter escolas do século XXI com métodos e materiais do século XX, o que urge fazer é não pretender que estes formandos se isolem e deixem de fazer das relações sociais um ponto importante de todas as aprendizagens. Isto é: os professores (muitos ou poucos) serão sempre precisos.
In Memoriam – Soube no momento em que escrevia este texto que faleceu a Manuela Teixeira, importante dirigente da FNE. Quase sempre discordamos, mas sempre nos respeitamos. Para os mais novos, direi que o encontro de vontades da Manuela, do António Teodoro e do Roberto Carneiro foi fundamental para a aprovação do Estatuto da Carreira Docente, com as coisas boas e as nem tanto que ele consagra. Vénia, Manuela!


