Opinião: “Muitas razões para visitar a AnoZero Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra”
Está em plena actividade a quinta edição da AnoZero, Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra. A primeira realizou-se em 2015, experimental, como todas as iniciativas de abertura, logo deixou campo aberto às que se lhe seguiram, em 2017, 2019, uma edição intercalar em 2020, e a presente, em 2021-22, devido às interrupções da pandemia.
A Bienal tem-se desenvolvido por vários espaços da cidade, mas sempre teve o imponente Convento de Santa Clara-a-Nova como núcleo central, este ano não foi excepção. Comecemos, portanto, por aí. Quase três dezenas de artistas expõem naquele espaço. Mencionarei apenas algumas obras, deixarei muitas outras por referir, injustamente, entenda-se. A exposição preenche todos os espaços do convento do século XVII, bem como os anexos e os espaços exteriores, usados ao longo de décadas como dependências das instalações militares que o ocuparam. A artista Elisabetta Benassi aproveita os colossais 160 metros da ala das celas para nos emocionar com um diálogo ficcional em morse, de uma ponta a outra do corredor central, entre os poetas Pier Paolo Pasolini e Sandro Penna. Um pouco por todo o lado, ao longo da exposição, podemos admirar as inebriantes fábulas cerâmicas da escultora senegalesa Seni Awa Camara. Tão potentes são, do ponto de vista comunicacional, que fiquei a pensar que, se estivessem juntas num só espaço, teriam um impacto avassalador. Marcante é também a instalação de Jesse Darling no piso superior, incidindo sobre as grilhetas da burocracia que cada um de nós, humanos, de uma forma ou de outra, arrasta ao longo da vida. Ou a de Lygia Pape, suaves jogos tridimensionais no átrio das escadas centrais do corredor.
Já fora do espaço do convento, nas antigas instalações militares, podemos ver e ouvir diversas peças e instalações. De entre essas, focar-me-ei na de Carlos Bunga, tão intensa que não conseguirei nunca descrever em tão poucas linhas. Ou nas as instalações sonoras do coletivo Musa paradisíaca e do artista Yoan Sorin, a primeira mais subtil, a segunda mais intensa, mas ambas fortes e penetrantes.
Podemos assim novamente percorrer o convento real de Santa Clara-a-Nova, deixando a colossal monumentalidade impelir ao triste pensamento que a Coimbra contemporânea não consegue honrar a escala do seu passado, o que nos sugere sempre este confortável e inerte sentido de decadência. A sua utilização artística e cultural, porém, acalenta-nos nessa condição e, simultaneamente, torna mais desconfortável o decadentismo, alerta-nos para a vida. Avisa-nos que a utilização daquele espaço deverá, na sua essência, ficar de agora em diante ligada a esta nobreza artística e cultural.
Mas o espaço da Bienal não se confina a Santa Clara-a-Nova, estende-se por todo o centro da cidade. As galerias do Círculo de Artes Plásticas, a Círculo Sede com as peças de Mary Beth Edelson e de Meris Angioletti, entre outras; a Círculo Sereia, com uma curadoria colectiva em volta de um filme marcante, que emociona pela imagem tanto quanto pelo conteúdo; a Estufa Fria do Jardim Botânico, com uma instalação site specific de Diana Policarpo; e o Teatro da Cerca de São Bernardo, que aloja uma performance de Ana Pi, hoje mesmo, às 19h00.
A Bienal AnoZero é uma aposta ganha, é uma iniciativa cultural consolidada, com repercussões nacionais e internacionais. Não lhe pode acontecer o que aconteceu a tantas outras apostas ganhas, a tantas outras iniciativas culturais da cidade, que tiveram os seus tempos áureos e se esvaneceram com o tempo. Esperemos que as entidades oficiais e privadas que a apoiam, bem como os parceiros institucionais que colaboram na organização e na produção, saibam, em conjunto, garantir a esta iniciativa melhores condições de estabilidade e, consequentemente, de crescimento.


