Opinião: Mundo programável : entre eficiência e confiança!
Já no final dos anos oitenta do século vinte, Yoneji Masuda, para muitos “O Pai da Sociedade da Informação”, vaticinava o aparecimento de uma era de criatividade intensiva como corolário da evolução da sociedade em rede. Ainda nos anos noventa, o engenheiro e futurista Ray Kurzweil propunha o conceito de “singularidade”, para significar uma época de ondas de inovações sucessivas, que culminariam com o aparecimento de uma superinteligência capaz de se afirmar acima das potencialidades humanas de resolução de problemas pela racionalidade e pela inteligência “natural”.
Com a evolução dos sistemas computacionais após a segunda guerra mundial, a sociedade e a economia ficam em posição de alterar os modelos de produção pela ampliação do trabalho mecânico por incorporação de software, primeiro para criar autómatos programáveis, e agora para gerar entidades autónomas dotadas de inteligência e alguma “sensibilidade” embutida.
Se é consensual que criatividade, inovação e inteligência podem ter um papel libertador e vêm assumindo um papel crescente em todas as esferas da vida em sociedade, também é muito claro que para mais liberdade corresponde uma maior responsabilidade.
Percebe-se hoje um mundo programável, onde os efeitos gerados por sistemas artificiais capazes de produzir objetos dinâmicos, reclamam uma reflexão e atualização profunda sobre os sistemas económicos, sociais, tecnológicos, ecológicos e legais vigentes.
A resposta a um «modus operandi» de tempo real e de mensagens instantâneas passa pela utilização permanente e cada vez mais eficiente de processos digitais, numa lógica que se insinua pela modelação de comportamentos, e culminará na produção de novos sentidos assistidos por redes de ubíquas, ambientes imersivos, inteligência artificial e computação quântica.
Encontrar equilíbrios entre o tempo dos homens ( da sua biologia ) e o tempo digital dos artefactos e sistemas construidos a partir da internet e da sociedade em rede, é um grande desafio civilizacional que ultrapassa as dialéticas espaço / ciberespaço, físico / ciberfísico, para se concentrar na importância da explicabilidade dos algoritmos de “caixa negra”, na monitorização e controlo de segurança sobre riscos cibernéticos e na avaliação contínua de incentivos e recompensas com origem na interconexão exponencial de pessoas, entidades e objetos.
Fragilidade, Ansiedade, Não-linearidade e Incompreensibilidade são elementos que caraterizam a sociedade pós-pandemia, agravados com uma guerra que influencia os canais de suprimento e desafia pessoas, empresas e instituições para a defesa intransigente e “programável” dos valores fundacionais da empatia, transparência e responsabilidade, enquanto sustentáculos de um bem maior – a confiança.


