Opinião: Não tenham vistas curtas
Na recente entrevista do Papa Francisco à CNN Portugal, somos tocados por um homem próximo, simples, sincero, com humor, com profundidade e sem medo das perguntas difíceis. Há neste Papa uma autenticidade desconcertante e espontânea, capaz de nos convocar pela bondade e pela exigência que coloca na sua vida.
Mas há lado ainda mais impressionante: as imagens, as metáforas, o discurso claro, a falta de medo dos temas difíceis, a misericórdia e esperança que cada afirmação transporta.
Foram muitos os temas e as afirmações do Papa. Gostava de sublinhar três.
1. “O abuso de autoridade, abuso de poder e abuso sexual é uma monstruosidade. E uma coisa muito clara é: tolerância zero”. Forte e muito claro. O abuso é sempre de condenar. Não há como desculpar, como justificar, nem como minorar a responsabilidade. Tolerância zero.
O Papa Francisco pediu, e quase que ‘obrigou’, que cada diocese tivesse uma Comissão de Proteção de Menores e Adultos Vulneráveis. A diocese de Coimbra constituiu a sua comissão em maio de 2020. Da qual fazem parte mulheres e homens, leigos e padres, psicólogos, pedopsiquiatras e advogados.
Não está tudo resolvido, não podemos dizer que a questão deixou de existir, mas há caminho iniciado e uma vontade enorme de superar esse drama e de ajudar a vítimas. Há um enorme esforço para que estas situações não voltem a acontecer na Igreja.
2. “Na administração normal da Igreja faltavam as mulheres. A entrada das mulheres não é uma moda feminista. É um ato de justiça que, culturalmente, tem sido posto de lado”. O Papa não faz afirmações gratuitas. Ele mesmo começou a nomear mulheres para vários organismos da Cúria Romana.
Nomeou três mulheres para acompanhar processo de nomeações episcopais; uma mulher como ‘número 2’ do Governo da Cidade do Vaticano, a irmã Raffaella Petrini; já a irmã Nathalie Becquart foi designada subsecretária do Sínodo dos Bispos, sendo a primeira mulher com direito a voto nas assembleias sinodais; Barbara Jatta é a atual diretora dos Museus do Vaticano e a brasileira Cristiane Murray, vice-diretora da Sala de Imprensa Santa Sé; nomeou duas subsecretárias para o Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, Gabriella Gambino e Linda Ghisoni; a religiosa espanhola Carmen Ros Nortes trabalha como subsecretária na Congregação para os Institutos de Vida Consagrada. Entre outros exemplos.
Penso que as dioceses portuguesas, as unidades pastorais e outros serviços podiam e deviam ‘aprender’ com o Papa a integrarem mais mulheres na ‘administração e lugares de decisão’ da Igreja.
3. O Papa termina a dizer para nós abrirmos as janelas. “Não tenham vistas curtas. (…) Qua a tua janela? Qual a tua esperança? (…) Olhem para além do nariz. Olhem para o horizonte e alarguem o coração”.
Precisamos dessa coragem, desse horizonte, dessa força que se alimenta de evangelho e de eucaristia. Caso contrário, permanecermos fechados sobre nós mesmos, enredados em problemas pequenos e mesquinhos, incapazes de palavras proféticas e de gestos mobilizadores.


