Opinião: O Algarve também é Portugal?
Estou a escrever esta Opinião, nos primeiros dias de agosto (no mês passado estes artigos não foram publicados), de férias no Algarve. A julgar pelo que vejo à minha volta, metade do País e do resto do mundo mudou-se para aqui neste mês. Alegadamente para descansar, ou para vir a banhos, o que não é certamente a melhor forma de descansar…
Mas sempre dá para fazer algumas coisas para as quais não temos tempo durante o resto do ano. Como ler os jornais. E o que é que eu vi nos jornais? Naturalmente por defeito de profissão, o meu olhar concentrou-se em meia dúzia de títulos relacionados com o SNS do Algarve que, precisamente nesta altura, deveria estar no seu melhor. Vamos a eles: O serviço de urgência de cardiologia do Hospital de Faro não tem recursos; Falta de médicos no Algarve obriga serviços de urgência a encerrar; Médicos não querem ir trabalhar no SNS no Algarve; Médicos do Algarve aliciados a trocar férias por dinheiro; Algarve paga o triplo para médicos e enfermeiros; Médicos formados no Algarve consideram região má escolha.
Algo de novo? Não! Apesar de tudo, o Algarve ainda é Portugal e está a passar-se aqui o que se passa noutros sítios do País, e que tem sido objeto de muitos outros títulos nas últimas semanas. A crise nos serviços de urgência, da obstetrícia e não só, que antes já aqui comentei, está aqui para ficar e não passará apenas com os ‘pensos rápidos’ que têm vindo a ser anunciados pelas entidades governamentais.
Então por que razão estou aqui a gastar o meu e o vosso tempo? Para já, quero concentrar-me no último dos títulos que acima enumerei: Médicos formados no Algarve consideram a região má escolha. Aumentar o número de médicos a querer ficar a trabalhar na região foi um dos argumentos para a criação do curso de medicina na Universidade do Algarve, aliás com a oposição de muita gente dos meios académicos nacionais. “Integrado numa resposta à enorme carência de médicos na região do Algarve”, dizia-se no diploma que o criou. A admissão neste curso é, de resto, muito seletiva e “aberta exclusivamente a pessoas possuidoras, no mínimo, de uma licenciatura numa das áreas estabelecidas pelo regulamento de candidatura e seleção”. O próprio curso tem caraterísticas diversas dos das faculdades clássicas. Talvez, portanto, se devesse adicionar uma cláusula de obrigatoriedade de prestação nos estabelecimentos do SNS da região por certo período. Já agora, como é que se atraem os professores do curso? É mais fácil fixá-los que aos alunos?
Centro-me agora noutro título: médicos não querem ir trabalhar no SNS no Algarve. Um curso de medicina, de seis anos, nas faculdades públicas custa ao contribuinte muitas dezenas de milhares de euros, várias vezes mais caro que os outros cursos superiores. Mesmo para os alunos que pagam as propinas, menos de cinco mil euros no total do curso, trata-se de um benefício que talvez devesse ser compensado ao País e aos seus cidadãos. Profissionalmente, não onde se quer, mas onde se é útil e necessário. Aliás, não estamos a falar em enviá-los para o deserto, numa espécie de colónia algures noutro continente! A propósito, note-se que a propina do novo curso de medicina da Universidade Católica excede os 17 mil euros anuais!
Naturalmente, sou pela regra de que é melhor convencer do que impor, mas em tempo de guerra o serviço militar obrigatório talvez volte a ser uma necessidade. Contudo, há outras maneiras de melhorar as coisas. Ainda um outro título: “Internos estão a ser usados para tapar buracos nas escalas de serviço”. Para quem não sabe, internos são médicos que estão a fazer uma formação específica, isto é, a aprender para ser especialistas. Internos do 5º ano estão no fim dessa aprendizagem. Por que razão, então, não podem ser utilizados? Sempre foram! Aliás, todos os que por aqui andam sabem que os internos sempre foram a “classe trabalhadora”. Só que agora é conveniente ‘ressuscitar esqueletos’ dos armários; para fins políticos, claro!
Problemas com as escalas sempre os houve. Talvez o problema seja agora um pouco mais agudo, mas anunciar que a urgência vai fechar das tantas às tantas tornou-se uma certa forma de afirmação daqueles que deveriam resolver os problemas em vez de os proclamar como conquistas. Refiro-me aos diretores de serviço, claro. E aqui saúdo aquela diretora “que há muito não fazia urgências, mas que agora se integrou a si própria na escala”. Haverá, certamente, outros exemplos semelhantes, mas é tempo de acabar com as isenções que a atual lei estabelece. Pelo menos não aos 50 ou 55 anos. Quem me dera poder lá voltar…



Grande lição, como sempre. Esperamos que alguém com responsabilidades governativas tire daqui as respetivas conclusões. O SNS está moribundo, precisa de alguém que o recupere.