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Opinião: O espaço e o tempo

07 de às 16h00
2 comentário(s)

Aquiles, na sua correria, persegue a vagarosa tartaruga que se desloca à sua frente. Mas quando ele chega ao lugar onde estava a tartaruga, já esta se deslocou um pouco mais para a frente, e Aquiles tem de continuar a persegui-la. Assim acontecerá da próxima vez que Aquiles chegar ao lugar onde antes estava a tartaruga, e da vez seguinte, e de todas as outras vezes até ao infinito. Conclusão: Aquiles nunca ultrapassará a tartaruga.
Este é um dos paradoxos de Zenão que, desde Aristóteles, persegue a Filosofia. Coloca-nos em questão a noção mais vulgar do tempo, aquele que medimos pelo movimento dos ponteiros de um relógio. Neste caso, porém, existe sempre uma espacialização do tempo. O mostrador do relógio não é senão um espaço percorrido pelos ponteiros, cuja posição comparamos com as anteriores, guardadas num espaço auxiliar que entretanto memorizámos. Esse é o espaço cartesiano que junta num gráfico os dados quantitativos e as divisões temporais. Descartes, com os seus Discurso do Método e Princípios de Prima Filosofia, fundou a modernidade e a possibilidade da Ciência. Mas o preço foi colocar o tempo indivisível no espaço divisível.
Qualquer pessoa, sem saber de lógica nem ter formação científica, saberá que Aquiles vai ultrapassar a tartaruga. Mas, para o saber, é preciso ter uma noção intuitiva do tempo. Um tempo que não se divida nem se coloque no espaço. É um tempo contínuo, como explicou Henri Bergson, outro filósofo francês que, no início do Século XX, publicou três livros decisivos: Ensaio sobre os Dados Imediatos da Consciência, Evolução Criadora e Matéria e Memória.
Para Bergson, existe na Filosofia “uma confusão entre a duração e a extensão, a sucessão e a simultaneidade, a qualidade e a quantidade”, ou seja, confundem-se as categorias ligadas ao tempo com aquelas que se ligam ao espaço. Vejamos: a sucessão é temporal, a simultaneidade é espacial. Assim, do mesmo modo que se tem considerado o tempo como a deslocação no espaço (ou seja, o movimento), também se pode considerar o espaço derivado do tempo. Por exemplo, se eu tiver agora os pés de uma cadeira, que retiro depois e os substituo pelo tampo, e depois pelas costas, nunca terei aqui uma cadeira. Só a terei quando os pés, tampo e costas se dispuserem simultânea e articuladamente. Por sorte, o carpinteiro, ao fazer a cadeira, tratou de colar ou aparafusar as diversas peças para que se apresentem sempre em simultâneo.
A ideia de que o tempo era limitado pela velocidade da luz (exposta por Einstein mas contestada por Bergson, que não teve o apoio da comunidade científica de então), foi agora posta em causa pela Física Quântica, o que deu origem ao Prémio Nóbel deste ano. Talvez no futuro possamos ver o tempo como dado primordial, de onde se derivou o espaço, necessário ao desenvolvimento da nossa inteligência, mas que pode contrariar a simples intuição, como mostra a corrida entre Aquiles e a tartaruga e os outros paradoxos de Zenão. Mas é possível que se desvendem os mistérios da Física Quântica, da mente e da vida. A evolução do corpo material ao longo do tempo não será a própria vida? E não será a mente o devir dos estados cerebrais pelo tempo fora?

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2 Comentários

  1. Pimenta Quntica diz:

    Relembra-se a propósito de Tempo e de quem pensa e fala acerca de Tempo, dos Três Modelos de Consciência Temporal, de Tempo e Consciência, e em particular, do trabalho de Edmund Husserl, trabalho de uma vida – da dele, Edmund Husserl – que, sendo um dos proponentes do Modelo Retencional (terceira forma de Realismo Fenómeno-temporal), muito interesse suscitou e continua a suscitar entre os cientistas cognitivos e outros interessados cientistas neuro. Este, tal como os outros modelos existentes, procuram fazer sentido da nossa (humana) experiência de fenómenos temporalmente extensos, mas divergências permanecem quanto ao ponto de como precisamente esta experiência deve ser entendida, bem como a outros assuntos relacionados a ela.
    Para os Realistas FT, a mudança, sucessão e persistência podem ser directamente percepcionadas, apreendidas. O Modelo Retencional propõe que a experiência de mudança e sucessão ocorre em episódios de consciência de estrutura complexa, eles mesmos desprovidos de extensão temporal, embora os seus conteúdos apresentem ou representem intervalos e fenómenos temporalmente extensos. Estes episódios de consciência compreendem fases momentâneas de experiência imediata, a par com representações do passado recente. As nossas humanas correntes de consciência serão compostas, de acordo com este modelo, de sucessões destes estados momentâneos.
    Husserl escreveu voluminosamente acerca de Consciência de Tempo, mas que se tenha conhecimento, nunca alcançou uma posição com a qual se sentisse satisfeito por muito tempo ou sequer publicou uma afirmação definitiva da sua posição acerca deste assunto.

    Já que se sente confortável a escrever na Espiritualidade de o Diário As Beiras, também se sugere o Aurelius Augustinus Hipponensis, que muito pensou e escreveu sobre Tempo.

    O Tempo, Tempo e Consciência é um assunto tal que a experiência dele, Tempo, permite-nos observar o encanecimento dos prolongamentos filiformes do alto da humana pinha. 🙂

    A ver vamos o que os Modelos Quânticos trazem de novo…

    Husserl, E. (1928/1964), The Phenomenology of Internal Time-Consciousness, (tr. J. Churchill.), The Hague: Marinus Hijhoff.

    Kortooms, T. (2002), Phenomenology of Time: Edmund Husserl’s Analysis of Time-Consciousness, Dordrecht: Kluwer.

  2. Pimenta Quantica diz:

    E já agora, conclui-se o encómio pela difícil temática escolhida para escrita na Espiritualidade do Diário As Beiras, com a interessante referência que ficou omissa:

    Dainton, B. (2001, 2nd edition 2010), Time and Space, Chesham: Acumen.

    Livro escrito por Barry Dainton, com a intenção, menciona o autor na primeira edição, “to provide an introduction to the contemporary philosophical debate that presupposes little or nothing by way of prior exposure to the subject, but that will also take the interested and determined reader quite a long way”.

    Recorda-se que na primeira edição (2001), não há qualquer menção aos paradoxos de Zenão, omissão que foi remediada na oportunidade oferecida por uma segunda edição do livro (a de 2010), na qual os paradoxos de Zenão são discutidos.

    Tal como Barry Dainton, decerto estará este e qualquer académico sério, “Mindful of the dangers of covering difficult material in only a superficial manner (…).”. 🙂

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