Opinião: O fim da cristandade! Graças a Deus?
Dizia o Papa Francisco, em 2019, “já não estamos na cristandade! Hoje já não somos os únicos que produzem cultura, nem os primeiros, nem os mais escutados”.
Armando Matteo comentava esta frase dizendo que “Já não estamos num regime de cristandade porque a fé – sobretudo na Europa, mas também em grande parte do Ocidente – já não constitui um pressuposto óbvio do viver comum, ou antes, muitas vezes, chega até a ser negada, desprezada, marginalizada e ridicularizada”.
É bom? É mau? É uma realidade que nos desafia e que devemos procurar ler como estímulo e provocação existencial. De nada serve lamentar-se nem reclamar um passado idealizado que nunca existiu.
É difícil, mas na verdade precisamos de dar passos concretos como Igreja para respondermos ajustadamente às sedes que continuam a habitar o ser humano.
Muitos ainda procuram negar que a cristandade acabou, queremos restaurar o passado num tradicionalismo desligado da vida e da realidade, num teatro sectário e anacrónico muito pouco evangélico.
Outros percebem a mudança e a necessidade de mudar de paradigmas de comunicação, de formação, de relação…, mas nada alteram, procurando ser fiéis a receitas que hoje nada dizem e nem ‘faz arder o coração de ninguém’ (como aos discípulos de Emaús).
Outros procuram abrir portas, rasgar horizontes, introduzir novos dinamismos sinodais centrados nas pessoas e nas comunidades, mas sentem o isolamento das ações, o amadorismo das estruturas, o desgaste da falta de ‘gramática’ e de recursos.
Independentemente de tudo o que pudermos considerar, não basta introduzir uma certa tecnologia digital nas catequeses, nem manter um certo porreirismo superficial, nem continuar a exigir cada vez mais coisas a cada pessoa que se aproxima…
A Igreja não é uma empresa, apesar de precisar de uma organização; nem uma ONG, apesar de ser a maior escola do voluntariado; nem o conjunto de organizações de caridade, apesar de procurar ajudar os mais pobres e mais frágeis.
A Igreja há de ser uma ‘casa’ que tem lugar para todos, uma família que sabe lidar com as diferenças, uma comunidade que está centrada em Deus Trindade Amorosa. A Igreja há de ser um espaço de relações capaz de desafiar cada um a dar passos maiores no serviço, na contemplação, na interioridade, na profundidade, no compromisso com o outro e com a sociedade.
Estão abertas as inscrições para bons samaritanos, Zaqueus, filhos pródigos, prostitutas, Cireneus, samaritanas, Lázaros, bons ladrões, Nicodemos, Madalenas, Paulos, Pedros, Mateus, Cleófas, Tomés… As vagas dos perfeitos já estão preenchidas!


