Opinião: “O green deal e a transição ecológica que não quer deixar ninguém para trás”
O que sabem os cidadãos e as cidadãs sobre o que é o green deal, a transição ecológica e o pacto europeu? Por que isso é importante? Como é que o green deal nos prepara coletivamente para a transição ecológica? O que está a acontecer? A par da importância de discutir os processos, as metodologias, os princípios, os sistemas de avaliação, as medidas e as estratégias para a transição ecológica preconizada pelo green deal, devemos perguntar-nos se as cidadãs e os cidadãos sabem o que é, o que pensam disso e como se sentem ou não incluídos?
Apesar do green deal se apoiar num pacto ecológico assente em 50 medidas que visam a neutralidade climática até 2050, compromisso assumido no Acordo de Paris, na verdade parece que o centro do green deal é perpetuar o crescimento económico. O desafio é o de compatibilizar a necessidade de desacelerar (o consumo e o crescimento assente no uso dos recursos naturais) e dissociar (da utilização de recursos) com o objetivo de acelerar crescimento económico e as economias modernas, eficientes em termos de recursos e competitivas.
De igual forma se pretende que todos acompanhem a transição ecológica e que ninguém (nenhuma pessoa, nenhum grupo e nenhum lugar) fique para trás. No entanto, palavras como “desigualdade/igualdade” parecem ser escassas neste pacto ecológico, resultando num risco sério de continuar a garantir proteção a todos, independentemente das desigualdades estruturais em termos de riqueza e poder que permeiam pela Europa – continuamos a tratar os sintomas e não as causas. Tratar as causas implica reconhecer as desigualdades que atravessam, de várias formas e a vários níveis, as nossas sociedades e encontrar forma de acabar com elas – esse desafio é central para vencer esta luta contra o recurso mais escasso e importante nesta transição: o tempo. Não temos tempo, temos de acelerar a inversão desta destruição do planeta e com ele da nossa casa comum.
As alterações climáticas e a degradação ambiental estão no centro do reconhecimento europeu da necessidade de promover a transição ecológica em direção à sustentabilidade, o que reflete a necessidade de mudar e de reagir às crises socio-ecológicas que resultam da aceleração de origem antrópica. Por isso o Green Deal Europeu propõe-se, através de um conjunto de estratégias e medidas de ação, muitas das quais já estão em curso, atingir um conjunto de benefícios ao nível da saúde e bem-estar dos cidadãos e das gerações futuras, proporcionando:
– aumento da biodiversidade, dos solos saudáveis, da água e ar frescos;
– aumento das energias renováveis e edifícios eficientes;
– disponibilidade de alimentos saudáveis e acessíveis;
– aumento de transportes coletivos;
– mais energia limpa e inovação tecnológica de vanguarda;
– mais produtos de longa duração, que possam ser reparados, reciclados e reusados;
– empregos com futuro e formação de competências para a transição ecológica;
– uma indústria globalmente competitiva e resiliente
Reconhecer que não há fronteiras entre países na busca de soluções para a(s) crise(s) socio-ecológica(s), a degradação ambiental, as perdas de biodiversidade, abre o caminho para desenvolver políticas coletivas que permitam recuperar e restaurar os ecossistemas e travar o aquecimento global. Porque essas políticas impactam as pessoas e os territórios de forma diferente, é importante uma estratégia que se preocupe em gerir os impactos que ocorrem a um ritmo avassalador com singularidades que é preciso conhecer e reconhecer, por forma a desenvolver políticas que respondam às suas especificidades contextuais. A narrativa da transição justa proclamada pela visão da União Europeia deverá ser assente numa transformação radical em direção a uma sociedade mais igualitária que contemple futuros justos e sustentáveis.
Pode ler a opinião de Fátima Alves na edição impressa e digital do DIÁRIO AS BEIRAS


