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Opinião: O Observatório de Lowell onde se descobriu Plutão

29 de às 11h33
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Nesta semana que passou, estive na conferência científica internacional trienal “Asteroids, Comets, Meteors”, cujo nome dispensa traduções, em Flagstaff, no estado do Arizona, E.U.A., lugar muito especial para quem, como eu, trabalha em objetos trans-Neptunianos, também chamados objetos da cintura de Kuiper.

É em Flagstaff que se encontra o histórico Observatório de Lowell. Entre muitas grandes descobertas nele feitas, a descoberta de Plutão em 1930 é, sem dúvida, a mais mencionada. E ao falar de Plutão, não podemos escapar à perda do estatuto de planeta, em 2006. Não é também surpreendente que em Lowell se continue a dizer que Plutão é um planeta e que a esperança de vida de quem diga o contrário caia drasticamente.

Curiosamente, aquando do anuncio da sua descoberta, chegou até a ser classificado de cometa. Pura e simplesmente, não sabíamos exatamente o que dizer. Não havia uma definição de planeta até então. O próprio Ceres, ainda hoje o maior asteroide conhecido entre Marte e Júpiter, chegou a ser por muitos considerado um planeta. Afinal qual é critério? É só o tamanho? Qual? Deve ser planeta se tiver mais de 3000 km de diâmetro? E se tiver menos um centímetro, já não deve ser? E porque não 2000 km? Não há nenhuma diferença radical entre as propriedades de um objeto do sistema solar e um ligeiro aumento do seu tamanho. Infelizmente, não é como distinguir uma bicicleta de um triciclo, é mais como distinguir entre um camião e uma camioneta. Suponhamos que Plutão era considerado um planeta, tinha um súbito período de atividade criovulcânica — um vulcanismo de gelos a sublimar que de facto existe no sistema solar — e nessa atividade encolhia um quilómetro: deixaria de ser um planeta? Em suma, foi necessário encontrar um critério melhor do que o simples tamanho e optou-se por considerar que um grande corpo que orbite à volta do Sol, mesmo que consiga ficar bem arredondado devido à sua própria gravidade, se não conseguir “dominar” a sua região, no sentido em que ela não pode estar cheia de outros objectos de dimensões apreciáveis, então não é um planeta: é apenas um objeto de uma cintura de outros objetos, nenhum deles sendo um planeta.

Apesar de tudo, a polémica que ainda perdura em muitos meios, trouxe uma visibilidade a Plutão que ele nunca teve nem nunca teria. Plutão é mais conhecido que nunca. Pode não ser um planeta, mas ainda é o maior objeto da cintura de Kuiper que se conhece. E a história da sua descoberta é digna de um romance. Clyde Tombaugh, o agricultor pobre que sonhou e conseguiu ser astrónomo, que foi contratado para encontrar o na altura alcunhado planeta-X, projeto muito querido de Persival Lowell, astrónomo e fundador do observatório, encontrou algo novo. Não foi o planeta-X, pois afinal os cálculos que faziam supor que este existia estavam errados. Foi Plutão, aquilo que parecia ser o último planeta do sistema solar e que depois de 1992, com a descoberta do 15760 Albion, e pouco depois do ( 181708 ) 1993FW3, se revelou ser, afinal, o primeiro objeto da cintura de Kuiper, o maior reservatório de gelo de água que se conseguimos observar no nosso sistema solar.

Percorrer o mesmo caminho que Tombaugh percorria, diariamente, desde o seu alojamento até ao telescópio e vê-lo bem preservado, mantendo ainda a famosa luva de boxe que ele amarrou a um tubo que insistia em acertar-lhe na cabeça, é algo que não esquecerei.

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