Opinião: O que não prescreve é a dor das vítimas
O recente relatório divulgado pela Comissão Independente sobre os abusos sexuais de menores na Igreja Católica Portuguesa, revela o lado perverso e autoritário da mesma Instituição.
Sou padre, conheço muito do que se passa nesta casa, tenho vergonha não apenas do escândalo provocado por muitas das nossas atitudes, mas sobretudo, pela dor causada a tantas vítimas de abuso (não apenas sexual).
4815 aparece como número de vítimas de abuso sexual ao longo de 72 anos, provavelmente o número até será maior, mas o mais importante é perceber que cada criança abusada não é um número estatístico, mas uma vida ‘destruída’ para sempre. A dor e o sofrimento nunca prescrevem.
Diz o texto bíblico que se alguém escandalizar uma criança seria preferível colocar uma mó de um moinho ao pescoço e ser lançado nas profundezas do mar (cf. Mateus 18,6 ).
Nos próximos dias a Comissão Independente irá entregar a lista final dos abusadores no ativo à Conferência Episcopal portuguesa e ao Ministério Público. Fala-se em mais de 100 nomes.
As perguntas seguintes são as mais importantes: Como ajudar as vítimas? Que acompanhamento lhes deverá ser prestado? Como é que podemos pedir perdão? Os bispos irão disponibilizar-se para escutar cada uma e pedir pessoalmente perdão? Seremos capazes de fazer mais alguma coisa do que vigílias e atos de contrição (importantes, mas insuficientes)?
Mas as perguntas importantes não terminam aqui: O que fazer com os abusadores vivos? Vamos simplesmente ‘atirar pedras’, ‘atar a mó ao pescoço e lançá-los ao mar’ ou mandá-los embora da Instituição? Vamos dizer que são apenas as maças podres de um belo pomar? Como os vamos acompanhar? Como os vamos ‘recuperar’?
Não basta umas palestras ou uns retiros, uns isolamentos e umas condenações, é preciso muito mais. Porque um pedófilo será sempre um pedófilo dentro da Igreja ou fora dela. O que está em jogo não é a proteção da imagem da Igreja, mas a defesa das vítimas e o evitar o máximo de reincidências.
Sabemos que infelizmente não é apenas um problema da Igreja, mas diz o relatório, que há um enorme trabalho a fazer para cuidar ‘das condições de vida dos padres e membros de ordens religiosas’. Muitos vivem em burn-out, em stress, sozinhos, com poucos vínculos afetivos…
Vivi 12 anos em ambiente de seminário, sou agora reitor de um seminário, estou preocupado com um modelo e uma formação que continua a ser desajustada para os desafios do mundo de hoje. Um desajuste maior quando nos referimos às questões da sexualidade e da afetividade.
O caminho não é ir embora (mesmo quando dá vontade), mas dar o nosso melhor, para (tentar) fazer diferente, para procurar partilhar o melhor do Evangelho, para reforçar a grande missão que a Igreja pode continuar a ter no mundo, sobretudo, junto dos mais frágeis.
Há luzes de esperança! Esperança que vai necessitar de mangas arregaçadas e corações generosos. O exemplo de Jesus é a referência e o testemunho do Papa Francisco um estímulo.


