Opinião: O Sagrado e o Profano
Mircea Eliade foi um dos mais notáveis historiadores das religiões que, em 1958, escreveu um livro decisivo: O Sagrado e o Profano – A Natureza da Religião. Embora ele se baseie na experiência comum do homem religioso, seja qual for a religião que professe, contrasta-a exuberantemente com a experiência do homem não religioso. A experiência sagrada e a experiência profana são os dois polos da existência humana, e aqui nos distinguimos dos outros animais. O homem das civilizações arcaicas e o homem moderno constituem os dois exemplos limites dessa experiência.
A experiência religiosa do homem arcaico manifesta-se através da “hierofania”: uma revelaçâo que pode transformar uma pedra banal numa pedra sagrada. Ela permanece uma pedra banal, mas adquire, através da hierofania, um significado transcendente. Assim, o espaço, que é homogéneo para o homem não religioso, transforma-se num espaço heterogéneo onde, um local ou evento sagrado, distinguindo-se de todos os outros, obtém um significado e aponta uma direcção. O sagrado revela-se ainda na construção de edifícios, a começar pelas igrejas, onde a base recebe os fiéis, mas as torres, acima dos altares, elevam-se para os céus e se ligam a eles. Numa simples habitação, a lareira, à volta da qual se pode reunir a família, corresponde ao altar, e a chaminé, em comunicação com o céu, corresponde às torres. Assim, podemos encontrar, mesmo no espaço profano, resíduos do espaço religioso. Muitas vezes, a dimensão religiosa transforma-se em dimensão estética.
Do mesmo modo que o espaço, também o tempo é homogéneo e linear para a experiência profana, mas heterogéneo para a experiência religiosa. Em O Mito do Eterno Retorno, escrito em 1954, Mircea Eliade considera o tempo cíclico, repetível e marcado pelas celebrações religiosas, durante os solstícios e equinócios, marcadas por comportamentos ritualísticos, por vezes com sacrifícios, que visitam o sagrado e conferem aos fiéis o reforço da sua Fé. Assim, eles ficam capazes de viver as incertezas do tempo profano porque são alimentados por uma esperança renovada e renovável em cada ciclo. Terão sempre a certeza que ao Outono e Inverno, com o cair das folhas, se seguirá a Primavera e o Verão, com o nascer e a exuberância das flores e frutos, tal como à noite se segue a madrugada. No mundo agrícola, estas certezas eram decisivas, fazendo os homens acompanhar o ritmo da natureza.
Hoje, a maioria da população vive em metrópoles urbanas onde o dia pode não se distinguir da noite, as oscilações do clima são minimizadas, a morte e o sofrimento, bem como o próprio nascimento, são escondidos nos hospitais, e tudo parece correr linear e homogeneamente. Nas metrópoles urbanas abundam festividades e celebrações, onde os altares foram sustituídos pelos palcos, mas perderam o seu carácter cíclico. Ocorrem apenas ao sabor das oportunidades ou da disponibilidade dos novos sacerdotes que preenchem os diversos palcos.
Quanto ao tempo cíclico, é possível que muitos fiquem reduzidos à sucessão do dia e da noite, naturalmente preenchido pelos seus próprios rituais – agora incluindo contactos à distância e virtuais – sem os quais não saberiam viver.


