Opinião: Os cortejos de outrora
Escrevo estas linhas no momento em que o Cortejo da Queima das Fitas já desfila pelas ruas de Coimbra. Este ano, o habitual representante da AAEC (Associação dos Antigos Estudante de Coimbra) no júri, dr. José Paulo Soares, pediu escusa, por razões de saúde. Felizmente nada de grave, tal como a maleita que me retém a mim em casa e me impede de ir avaliar os carros.
Mas a AAEC está muito bem representada no júri pela nossa Vice-Presidente, a dr.ª Aurora Branquinho Serra e Silva, a quem cabe este ano a responsabilidade partilhada de julgar as dezenas de carros das diversas Faculdades (e oxalá não tenha de intervir enquanto médica…).
Não podendo eu fazer a descrição do desfile, opto por aqui transcrever excertos das referências que a ele foram feitas por alguns nomes grandes das letras portuguesas, que nele participaram enquanto estudantes. Para tanto, recorro à monumental obra intitulada “A Academia de Coimbra”, da autoria do saudoso Alberto Sousa Lamy (um advogado que dedicou grande parte da sua vida a investigar as tradições académicas coimbrãs) e que inclui relatos de alguns escritores reputados.
José Régio (que foi caloiro da Faculdade de Letras em 1921 ), narrava assim a passagem do cortejo na “Baixa” de Coimbra:
“Nesta esparsa e bárbara sinfonia vinham avançando devagar os carros das várias Faculdades, entre as duas alas da multidão comprimida nos passeios. Também, dum e outro lado, as duas filas de janelas estavam repletas de gente. Invejado privilégio nesse dia – ter uma janela na Rua Ferreira Borges!” (in “A Velha Casa”).
Branquinho da Fonseca (que se licenciou em 1930 na Faculdade de Direito) descrevia, a dado passo:
“O cortejo foi-se desdobrando e estendendo pelas velhas ruas, a caminho da parte baixa da cidade. Eram carripanas de todos os géneros e feitios, desde carroças, camionetas e automóveis, aso carros puxados a bois, todos cobertos de flores de papel, de ramos de árvores, de folhas de palmeira, numa apoteose pagã. Os ódios políticos tinham desaparecido, as inimizades, as rivalidades apagavam-se; os futricas confraternizavam com os estudantes, numa harmonia que parecia definitiva. E contudo, nos cartazes dos carros, iam piadas políticas, sátiras sangrentas, alusões picantes a tudo que, acontecido ultimamente na vida académica ou na vida do burgo, se prestava a gracejos ou ironias. Na rua principal da cidade, sob uma chuva de flores, os carros rompiam a custo por entre a multidão que ria e aclamava os estudantes”. (in “Porta de Minerva”).
E mais uma transcrição, esta de Vergílio Ferreira (que se formou em Letras em 1940 ), em “O caminho fica longe”:
“Havia um barulho ensurdecedor de tambores e berros. Enovelado na mole de gente, um estudante, de colarinho desapertado e de gravata solta, escorrida como um nagalho, sacudia-se em movimentos cansados, a protestar, a exigir… (…) Das janelas sobranceiras, as raparigas sorriam dos gracejos dos estudantes. Havia-as inquietas, que tinham vindo de longe a buscavam, sôfregas, o olhar complacente de algum doutor. Outras, tesas de importância, alongavam soberanamente o dedo, para indicarem à vizinha o seu noivo que queimara o grelo”.
Assim eram os cortejos de outrora, quando não havia os lastimáveis banhos de cerveja…



