Opinião: “Os imigrantes da parte Sul”
No 10 de Junho somos todos o mesmo ‘povo’ e o mesmo país. Mas estaremos a fazer o suficiente pelos imigrantes e lusodescendentes no país de acolhimento?
Cinco milhões em todo o mundo só podem eleger quatro representantes na Assembleia da República, repartidos pelo PS e PSD e, anualmente, na mesma data, a narrativa repete-se sobre os representantes do povo.
“[Os deputados] estão no centro do debate político para a valorização das comunidades (…), procurando sempre que os governos e a sociedade compreendam a sua relevância para o país e a necessidade de serem considerados como portugueses de parte inteira (…)”, escreveu o deputado do PS, Paulo Pisco, no dia 10 de junho.
Do lado de cá, a perceção é outra, questionando-se qual é o contributo específico dos governos e dos deputados na AR, e dos seus diplomatas, na valorização de quem está fora neste país?
Dois exemplos recentes:
Em 14 de junho, o parlamento aprovou, por unanimidade, um voto de solidariedade com a comunidade portuguesa na África do Sul devido a “intempéries” na província do KwaZulu-Natal, reiterando “a união de esforços no apoio às autoridades da República da África do Sul, tendo em vista a recuperação das zonas atingidas, e para que rapidamente se salvaguarde a segurança de todos”.
Acontece que a África do Sul foi atingida por inundações mortais sem precedentes em abril, e novamente afetada em maio por intempéries. Chuvas torrenciais mataram quase 450 pessoas, no final de abril, em inundações e provocaram deslizamentos de terra e a destruição de infraestruturas. Os sobreviventes permaneceram 10 dias sem acesso a água potável.
Se considerassem os cerca de 20.000 portugueses que vivem no KwaZulu-Natal como portugueses de “parte inteira”, o Governo teria certamente enviado ajuda de emergência imediata a exemplo do que fez em Moçambique.
Já nos dias 9 e 10 de Junho, a ministra Adjunta e dos Assuntos Parlamentares Ana Catarina Mendes, do PS, e o líder do PSD, Rui Rio, deslocaram-se à última hora a Pretória e Joanesburgo para celebrar o Dia de Camões e das Comunidades.
O povo apreciou a visita das elites, que se mostraram desfasadas da sua realidade, e notou novamente a ausência de contactos de alto nível com o Governo sul-africano.
Será que os portugueses neste país não são “parte inteira” e um ativo político, económico e qualificado suficientemente para Lisboa dialogar e relacionar-se bilateralmente ao mais alto nível com Pretória?


