Opinião: “Os que vão passando e os que vão ficando”
A Igreja portuguesa e a Companhia de Jesus perderam, na semana passada, um dos seus mais ilustres. Menos de um mês depois de completar 80 anos de uma vida cheia, ao longo da qual acompanhou e mudou a vida de muita gente, fundou e fez crescer instituições de presença da Igreja no mundo universitário em várias cidade portuguesas, imaginou e concretizou projetos de transformação social como os “Leigos para o Desenvolvimento”, o “Banco Alimentar contra a Fome ou o “Centro S. Cirilo” para apoio a migrantes e refugiados, passando também pela Direção do Centro Social da Musgueira, em Lisboa, pela Direção da Revista Brotéria e por muitas outras instituições de serviço. Foi ainda, no início deste século, Alto-Comissário para as Migrações e Minorias Étnicas e teve, ao longo de décadas, uma presença assídua nos órgãos de comunicação social, das televisões às rádios e à imprensa escrita.
Conheci o Padre António Vaz Pinto na altura em que entrei para a Universidade de Coimbra, no início dos anos 1980. Nesse tempo, o Padre António, com os Padres Vasco Pinto Magalhães e Alberto Brito, instalava, passo a passo, o Centro Universitário Manuel da Nóbrega no meio estudantil de Coimbra.
Para mim, tal como para muitos da minha geração, o pensamento estruturado e luminoso do Padre Vaz Pinto, a sua fé robusta sempre aliada à razão, a férrea vontade empreendedora e a contagiante boa-disposição constituíram uma ocasião de transformação pessoal que marcou as nossas vidas. Vive-se tanto melhor e mais realizado quanto mais nos descentramos de nós mesmos, eis uma das pedras basilares dos ensinamentos do Padre António. Na verdade, Portugal e Igreja portuguesa não ficaram mais pobres com a sua partida, antes mais enriquecidos com os muitos frutos que deixou e as muitas sementes que plantou. Bem-haja, padre António!
A atividade parlamentar da semana passada foi mais curta do que é normal: a circunstância de, na segunda e na terça, haver Jornadas Parlamentares do PCP, conjugada com o Congresso do PSD se iniciar na sexta fez com que os trabalhos parlamentares se concentrassem na quarta e quinta-feira. Esta semana, conjuntamente com alguns deputados do Grupo Parlamentar do PSD, ouvi as principais organizações sindicais da Administração Pública (a FESAP, ligada à UGT, a Frente Comum, ligada à Intersindical, e o Sindicato que Quadros Técnicos do Estado). O objetivo foi compreender o estado atual da Administração Pública Portuguesa, num tempo em que os funcionários públicos portugueses estão a ser aumentados em 0,9% para fazer face a uma inflação que já ultrapassa os 8%!! Todas as estruturas sindicais, no meio das óbvias diferenças, pintaram um quadro semelhante: o de forte desorientação da Administração Pública, de dificuldades em recrutar os melhores, de um quadro avaliativo injusto e ultrapassado, de uma situação salarial de cada vez mais penúria. Quando vamos ter a urgente reforma da nossa Administração Pública que cada vez mais ameaça asfixiar a economia do País? Uma Reforma feita com os que a servem e não contra eles, uma reforma profunda e integrada?
A minha semana parlamentar também incluiu a dupla audição, em Comissão e em Plenário, da Ministra da Saúde. Sobre a saúde, é o que se tem visto, com o Estado a mostrar-se incapaz de cumprir as suas obrigações mínimas, algo que nunca tinha chegado a este ponto nos mais de 40 anos do Serviço Nacional de Saúde. É urgente mudar de rumo, mas a Ministra parece não estar para aí virada. Estará o Primeiro-Ministro?


