OPinião: Os segredos que há em nós
Como não havia nada para fazer, havia tudo para fazer. Acho que é esta a explicação que encontro hoje, vários anos volvidos, para justificar a razão de eu e os meus amigos passarmos o início das tardes de verão sentados a apontar as matrículas dos carros que passavam. O início das tardes era fastidioso, porque tínhamos de fazer aquela digestão de três horas a seguir ao almoço. Fui ficando hábil em driblar o tempo. Grossudo, pesado, moroso, ele extremava as vagarezas durante cada instante daquelas três infinitas horas. Por essa razão, punha-me a fazer alguma coisa, crendo que assim ele havia de esquecer-se de mim, e eu dele.
Descobri que o tempo não entra dentro dos livros. Por isso fui condecorado com a grande cruz – porque, naquela idade, qualquer epíteto é mesmo uma cruz – de pior anotador de matrículas de sempre. Baldava-me ao serviço sem dar razões. As desconfianças dos meus amigos desfizeram-se quando passaram a ver, mês após mês, a minha bicicleta Sirla, roda vinte, estacionada à espera da biblioteca itinerante da Gulbenkian. Depois fechava-me em casa a ler. Começaram a apontar-me as estranhezas: fui acusado de ter apanhado poesia. Mas era pendurado no meu velho damasqueiro que via o mundo. Imaginava aquela luz que acende o olhar. Fitava o tempo, fundo, calado, gutural, parecendo guardar consigo os acasos. Sonhei que haveria de começar a escrever os livros que trazia dentro de mim.
Aconteceu agora, muitos anos depois. Aliás, desaconteceu, porque assim que terminei o meu romance de estreia, Os Segredos de Juvenal Papisco, ele cessou de me acontecer. O espaço, inventado, foi decalcado dos sítios da minha infância, com palavrinhas que pirilampiscavam como faróis deambulantes. No clima quente da América do Sul, ancorado em mil oitocentos e tal, a vida desta estranha terra, Orão, pode ser encarada como uma certa caricatura social, onde imperam as traições, os amores e os conflitos, não faltando o jornal que espalha boatos, nem as mezinhas ou as crenças mundanas. Talvez seja preciso advertir os leitores de que em Orão cabe todo um universo imaginado, onde a crueza da vida é exposta sem rodeios: os pecados nas mãos de quem não os comete, a tirania de todos, a bondade e a maldade como elementos efémeros. Sobre a política, é dito que «Orão está cheia de pelicanos. Podem ter o estômago cheio, mas, se lhes cheirar a mais, servem-se ainda das bochechas». Sobre a vertigem de existir, assevera que «a fé dá-nos asas quando perdemos o chão».
O padre Juvenal, personagem principal desta trama, é uma espécie de anti-herói como podia ser qualquer um de nós, nas imperfeições, na intimidade, nos anseios. O seu hábito, como um revestimento, não é muito diferente das máscaras que renovamos todos os dias.
De forma a explorar o caminho dos significados, das cadências e das sonoridades, este livro foi criado com palavras talhadas, por vezes inventadas, procurando que estas transmitam todos os sentidos, utilizando-as como instrumentos íntimos e afetivos. A linguagem é a maior invenção que o ser humano poderia alguma vez almejar. Devemos usá-la com delicadeza e intenção. É feita de palavras quânticas: nascem, fantasiam-se e emancipam-se em sonhos inexistidos. Foi essa liberdade regeneradora que permitiu a este livro aventurar-se em novas explorações, com chaves que abrem as portas recônditas que há dentro de nós.


