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Opinião: Presunção e água benta

18 de às 10h56
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As últimas semanas têm sido pródigas em notícias sobre educação: desde a divulgação dos “rankings” das escolas à elevada pressão sentida pelos alunos de uma das mais prestigiadas e antigas escolas de engenharia do país (o Instituto Superior Técnico). Temas aparentemente desconexos, mas fortemente interrelacionados na sensibilidade social sobre o significado da excelência no ensino.
A questão dos “rankings” é alvo de muitas análises simplistas, desde logo, na identificação mediática das “melhores” escolas. Naturalmente, estas escolas com “melhor” desempenho, traduzido na classificação média dos alunos em exame, refletem um processo complexo em que o desempenho da própria escola anda pari passu com o ambiente socio-económico envolvente. Tal não significa, como defendem os mais acesos adversários da divulgação destas listas, que as mesmas sejam inúteis. Desde logo, permitem traçar um panorama frequentemente demasiado claro (quase bairro a bairro) das desigualdades sociais no acesso à educação. Por exemplo, qual o tipo de política pública que justifica a existência no centro de Coimbra de duas escolas públicas, a escassos dois quilómetros de distância, separadas de 400 posições nos “rankings” publicados na comunicação social? Será uma questão de “apartheid” social, atendendo a que a escolaridade média dos pais de uma destas escolas excede 14 anos e na outra não atinge 7? Matar o mensageiro não resolve a questão. Talvez as políticas públicas de educação ganhassem se houvesse maior atenção pública a estes flagrantes e inexplicáveis contrastes. Para quem os souber ler (e estas listas têm motivado análises muito pertinentes), os “rankings” permitem identificar escolas com o toque de Midas, que fazem realmente a diferença no desempenho dos seus alunos. Não são necessariamente as que ocupam os lugares cimeiros.
O desempenho escolar dos jovens no ensino básico e secundário obviamente condiciona o acesso ao ensino superior, bem como o seu ulterior desenvolvimento escolar. São assim fonte de grande perturbação as notícias vindas de uma das escolas de referência do país em ciência e tecnologia, que atrai sistematicamente os alunos mais destacados do ensino secundário, sobre a pressão sentida por estes alunos tipicamente excecionais. Tem havido um interessante debate público sobre este tema, sintetizado em um par de artigos de opinião significativamente intitulados “Mimar ou não mimar, eis a questão” (Arlindo Oliveira, Público, 6/6/2022 ) e “Ensinar ou não ensinar, eis a questão” (Joana Sá, Público, 12/6/2022 ). Escola nenhuma se pode dar ao luxo de perder alunos sem antes fazer tudo aquilo que esteja ao seu alcance, dentro da sua missão social (“ensinar”, não “mimar”). Por maioria de razão, uma escola universitária que receba alunos com uma preparação significativamente superior à média tem uma obrigação acrescida, perante a sociedade, de os conduzir com o máximo sucesso até ao fim da sua formação. Tal como nos “rankings” das escolas secundárias, os motivos para que tal nem sempre aconteça poderão ser alvo de muitas “presunções”, que no irónico ditado popular podem ser tomadas sem limite, tal como a água benta. Em assuntos desta importância, será contudo mais avisado seguir o conselho de Newton, que sabiamente advertia contra as especulações sem fundamento: “Hypotheses non fingo” (não formulo hipóteses). Assim, perante os dados experimentais fornecidos pelos “rankings“ou pelas taxas de sucesso, urge perceber as causas dos resultados neles espelhados, para se poder agir racionalmente.

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