Opinião: Professores, Greves e Concursos
Comecemos por falar do grupo profissional. Alguns leitores se lembrarão dos tempos em que ser professor significava ocupar um estatuto social de prestígio. A partir dos anos 60 esse prestígio foi diminuindo paulatinamente, o que coincide com democratização do ensino e com o consequente recrutamento de mais, muitos mais professores. Acontece que a formação inicial baixou substancialmente de qualidade e não recuperou com a rapidez que seria desejável.
Quando se trata de escolher uma profissão os jovens não põem, por norma, a profissão docente como prioridade. Parece que só a escolhem os que têm uma verdadeira propensão para serem professores ou os que, com reduzidas notas à saída do ensino secundário, ali encontram uma alternativa de vida.
Como inverter este estado de coisas? Muito se tem dito sobre o assunto: melhores salários, melhores condições de exercício da profissão, melhor formação profissional, menos trabalho administrativo, sistemas de avaliação mais exigentes, seleção mais rigorosa dos que se dispõem a entrar para a profissão.
Como se vê, todas podem ser importantes e nenhuma o será por si só. Quero dizer que não é fácil descobrir o ovo de colombo desta profissão e que só reformas educativas que contemplem de muito cedo aspetos sistémicos poderão ajudar a encontrar outros caminhos que prestigiem o nobilíssimo trabalho de ser professor. Afinal não haveria médicos, nem juízes, nem militares, nem engenheiros se não tivessem passado pelos bancos das escolas e lá encontrassem quem os ajudassem a alfabetizarem-se.
Entretanto, vêm as greves. E vem esta greve que está na ordem do dia e que tem mais de manifestação de descontentamento com o governo do que restritamente com os problemas dos professores, dos funcionários e das escolas. Indiscutivelmente, o STOP que, tanto quanto se sabe, tem um número reduzido de sindicalizados consegue uma mobilização notável, coisa que os chamados “sindicatos institucionais” não têm conseguido ultimamente aproveitando a deixa que lhes é dada para saltarem de novo para o terreno.
Parece-me que há boas ajudas ao processo. A leitura atenta dos textos e as intervenções na comunicação social do Dr. Santana Castilho pode funcionar como uma boa “bíblia”. Para quem não sabe, o Dr. Santana Castilho foi um desastrado Subsecretário de Estado dos Assuntos Pedagógicos com o ministro Professor Fraústo da Silva.
Mas o seu instinto político e a sua indesmentível autoestima ajudarão, certamente, a criar lastro para esta situação O problema que se pode vir a pôr é que, no caso de malogro da luta, criar uma enorme orfandade entre os que acreditaram nela. Mas isso a seu tempo se verá. Por outro lado, estas greves por tempo indeterminado correm o risco de tirar alunos do ensino público para o privado, falhando o alvo. E não falo agora nos fundos de greve, que não se encontram previstos nem regulamentados e que são inacreditáveis, pois os professores admitem quotizar-se para que os assistentes operacionais façam greve e fechem as escolas. Isto é, os professores delegam noutros a vontade que têm de lutar, prejudicando-se o mínimo possível. Não gosto nem acho bem.
Os professores têm mais do que razões para lutarem, mas não devem nem podem delegar em terceiros que os substituam nas suas lutas.
Tenho pena, mas o tema dos concursos não cabe agora neste texto e nos quase 4.000 carateres de prosa que me é pedida.
Há uma enorme convergência de opiniões quanto à necessidade de se mexer nos concursos, dado que o atual modelo não serve a ninguém ou, pelo menos, serve a poucos. Então espera-se o quê?
Sobre esta matéria diz-se uma coisa e o seu contrário. Não é possível manter o atual modelo e querer ficar perto de casa. Quando um professor diz que ficou a 500 quilómetros de casa foi porque concorreu para lá. Ninguém é colocado para onde não admitiu ir. Mas a situação atual não serve alunos nem professores, particularmente os que andam com a casa às costas, como entrou agora no léxico da luta dos docentes
Façam o favor de negociar, de tomar medidas, de decidir. Alunos, pais, famílias esperam que se reponha a normalidade nas escolas, que os alunos aprendam mesmo, que os professores ensinem mesmo, que a educação cumpra mesmo o seu papel final e decisivo.
Mas o governo tem de cumprir o seu, coisa que não tem acontecido.
Se tal não se concretizar, será mais um ano perdido para todos, o que seguramente não é do gosto nem do interesse de ninguém.


