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Opinião – Quando o vazio garante sala cheia

21 de às 13h06
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Três meses depois da primeira edição, o evento Cristina Talks, conferências ao vivo organizadas por Cristina Ferreira (e, na sua maioria, sobre a própria), chegou a Lisboa, reunindo cerca de dez mil fãs. Cada uma destas pessoas pagou 19 euros para descobrir os truques “para ter sucesso, pessoal e profissional”. “Entre segredos e confissões, os participantes poderão ficar a saber mais sobre os percursos, as lutas e as conquistas de Cristina Ferreira e dos seus convidados. Esta é uma iniciativa que procura inspirar e motivar cada um a assumir o controlo da própria vida e alcançar o que mais deseja”, lia-se na descrição do evento, que terá gerado uma faturação de 190 mil euros.
Cristina Ferreira chegou com um fato às riscas, de corte masculino, que conjugou com um top bandeau, que lhe deixava a barriga ligeiramente a descoberto. Recebida em apoteose, entrou no placo aos saltos e aos gritos, apresentando os oradores. O “empreendedor” Fred Canto e Castro, que criou uma “agência de modelos para pessoas que têm a coragem de, mesmo com os olhos da sociedade em cima, viverem de acordo com a sua verdade”. Carlos Moedas, presidente da Câmara de Lisboa, que Cristina convidou porque “todos diziam que ia perder, mas ganhou”. Subiu ao palco não “como a pessoa importante que é”, mas como o “menino Carlos”, para nos recordar a frase batida de que “são os detalhes que diferenciam os bons dos muito bons”. Joana Salgueiro, que se apresentou com marido e filho. Assinando “Joana & André, os meninos de Moimenta da Beira”, são um casal desde os 14 anos e fundaram uma empresa de viagens, ela sobreviveu a um cancro e tiveram um bebé, apresentado como “co-CEO” da empresa. Paulo Figueiredo, fundador de uma plataforma de comércio de automóveis usados, lançada no dia em que o primeiro caso de Covid-19 foi confirmado em Portugal. Já tinha estado na primeira edição onde, segundo se lê no blogue da apresentadora, “partilhou a sua história de superação e inspirou todos a fazer mais e melhor, por si”. A Ana Bacalhau cantou “E quando dizes: Não vás/É quando eu mostro ao mundo ao que venho”, enquanto passava um vídeo com diferentes momentos da apresentadora, qual líder espiritual em celebração de domingo. Uma mistura de IURD com TEDx.
O momento alto teve Cristina a falar com um par de sapatos na mão. “Os célebres sapatos da sola vermelha. Custaram uma fortuna: 490 euros. É muito dinheiro”, disse, mostrando os sapatos que terá comprado com o primeiro ordenado. “Vou levar os sapatos. Vou falar-lhes da conquista. E depois pensei: “foram caríssimos, algumas pessoas nunca na vida vão poder comprar aqueles sapatos, porque é que os vou levar?’”.
O impasse foi resolvido com intervenção divina, contou a um público em lágrimas: quando foi procurar os sapatos, Cristina terá encontrado uma imagem de Nossa Senhora dentro deles. “Num armário onde guardo coisas que já não uso”. Cristina Ferreira vende-nos aquilo que não é possível comprar, mas todos procuramos: algo que nos salve. Algo em que acreditar. A possibilidade de ser, ao mesmo tempo, a mulher que usa tailleur e mostra a barriga; a fantasia de ganhar contra todas as expectativas; o sonho de ser maior do que a aldeia de onde saímos. O desejo de ser amada, na saúde e na doença, para sempre; a coragem de arriscar, quando tudo apela à prudência. E vende tudo chave-na-mão, maquilhado e em 140 caracteres. Sucesso em pó: é só juntar água. O ídolo abre-nos o armário das coisas que já não usa: sapatos que custam quase um ordenado mínimo nacional, onde até a fé encontrou lugar. Arruma-se tudo no mesmo sítio: coisas que se vendem, mas nem todos podemos comprar. Vazios difíceis de preencher, mas capazes de encher uma sala com dez mil pessoas.

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