Opinião – Queremos o direito mínimo contra a sociedade, ou regras e condutas balizando a liberdade?
Este é o debate que opõe as sociedades. Questões como os vírus, 5G, cozedura das lagostas e dos caracóis e outros problemas muito fracturantes servem de mote sempre ao mesmo problema: o da convicção de um se sobrepor aos demais, e o do limite do discurso do outro como fronteira de decência minha. A observação limitativa dos argumentos adversos usa tudo, a dieta, o animalismo, a obsessão por certificações contra a experiência, a rotina contra a imaginação, a opção pelos monopólios contra o pequenino, tudo o que for possível para aplainar os discursos e uniformizar as certezas. Agora os cubos só têm as faces que se podem ver. Esta é uma das batalhas do século XXI em relação à filosofia política, pois nela se substantiva os contínuos desejos de limitar o que se diz e o que se escreve nas redes sociais. A liberdade total seria impossível para a vida em comum. As regras até ao absurdo converter-nos-iam numa manada que se precipita num destino sem discussão, ou num formigueiro sem imaginação e sem criatividade.
Um exemplo no limite, que não é absurdo. Um cirurgião que faz cirurgia robotizada, pode ser substituído por um miúdo que joga computadores, pois o gesto técnico do miúdo é substancialmente mais fino em duas dimensões e o jogo de ressecar a próstata por entre veias artérias e nervos, empurrando bexiga, fugindo do intestino é-lhe fácil. Joga e ganha ou perde. Se perder precisa de um tipo que conhece as complicações, conhece as soluções que não estão no jogo, mas na inteligência artificial os erros aprendem-se e, portanto, o miúdo volta a afastar o cirurgião. As regras definidas do porque se joga, quando se joga, dependem de valores laboratoriais e de mecanismos de imagem convertendo-se em critérios que podem mais uma vez excluir os humanos. O problema está nas subtilezas que fogem das regras, na soma de factores que obrigam ao pensamento elaborado. Claro que isto também pode diminuir a intervenção humana.
A liberdade total é a condução sem código de estrada, é uma rotunda em Bombaim, uma experiência de condução em Nápoles, ou a entrar no Benim vindo da Arábia Saudita, mas mesmo assim, no caos quase total as pessoas vão na mesma direcção. As regras levadas ao extremo são os códigos cumpridos sob vigilância de câmeras, drones e portais. Vamos sempre cumprindo o código, sem infracções mesmo quando a solidão é total e a segurança está garantida. É o enfado, é a condução robotizada e sem condutor que se preconiza no futuro evitando acidentes e impedindo conflitos. Para que servirá ter carros diferentes então? Para que servirá variar as potências nessa altura?
A uniformização da importância de cada um também serve para compactar salários cada vez mais esmagados. Se fazemos todos o mesmo e da mesma maneira, valemos pouco, recebemos pouco.
Os discursos uniformizados são um dos sonhos do regime chinês que tentou acabar com as religiões, que induziu um discurso único nas escolas, uma total homogeneização do silêncio crítico. A liberdade irrompe sempre na oposição, exerce-se na argumentação. Se nem percebemos outras realidades, como vamos argumentar outra solução?
Imaginemos um menino pobre que só viveu na favela e nunca saiu dali. Imaginemos um médico que se formou e exerceu sempre na mesma instituição. As realidades de ambos estão coartadas pela falta de exposição. Não podem criticar porque não sabem que há outras realidades, outros modos de trabalhar.
Não sei qual é a solução para reduzir o ruído, o lixo linguístico, tal como é difícil reduzir o tom de voz na emoção, o embargo das palavras na dor, mas sei que temos de aumentar a eficácia do conhecimento, objectivar a diversidade como caminho e optar pela liberdade e a criatividade mesmo que elas pareçam loucura. Estou de novo com Agamben no seu último livro sobre a propalada loucura de Hölderlin.
Agamben quer mostrar agora, como antes, que o isolamento do discurso crítico pode ser o começo de duas realidades: a alienação do eu remetido à loucura imposta pelos outros, ou o fim da democracia isolando e ostracizando o outro, o que pensa diferente de nós.


