Opinião: Ridendo Castigat Mores
Nas últimas duas semanas o Conselho de Veteranos da Universidade de Coimbra realizou várias actividades, algumas delas inseridas na Semana da Capa e Batina que atingiram uma certa notoriedade e crítica popular. A mais notória foi possivelmente a manifestação inserida nas Calouríadas de 2023 em que cerca de duas centenas de Caloiros e Doutores ofertaram ao nosso edil um fardo de palha em manifestação. Esta manifestação, por sua vez, gerou uma contra-manifestação -nas caixas de comentários das redes sociais- em que o busílis dos manifestantes sobranceiramente esteve fora do alcance dos comentadores que se reduziram ao ad hominem básico e ordinário, não percebendo, nem querendo perceber, a razão da comoção.
Em tempos idos, a irreverência de Coimbra levou a que os Estudantes fizessem uma caricatura de Américo Tomás a comer um fardo de palha. Esta caricatura, que foi mais uma das achas na fogueira das Crises Académicas, foi amplamente aplaudida por todos e naturalmente contestada pelo Regime. É curioso notar então a dicotomia de reacções que obtemos quando são mencionados os episódios do “Boné”, do “Roubo da Cabra”, da “Revolta do Grelo” das Latadas dos anos 60, da invasão às escolas com gaiteiros, d’A Orxestra Pitagórica, em que a irreverência estudantil é vista como uma saudável expressão da juventudade justificadora dos atentados à boa ordem civil. No entanto, se a juventude de hoje se inspira nessa irreverência e tem a audácia de entrar Paço Municipal adentro, com um fardo de palha dirigido ao Edil, em contestação com medidas suas que atentam a Academia, estes são então vistos com um bando de cábulas irresponsáveis, possivelmente bêbedos, que esbanjam erário público ao faltar às aulas.
Ridendo Castigat Mores – A rir se castigam os costumes. E se já o renomeado dramaturgo Gil Vicente era assim elogiado pela sua acutilante crítica da altura, porque haverão os Estudantes, que tanto na sua história têm de inspiração dele (até um teatro “Académico”! – entre aspas, pois a Academia é de momento sujeito subentendido, ou oculto) divergir dessa fórmula? E não estará o Conselho de Veteranos meramente a cumprir com o seu desígnio, de providenciar, tal como se faz nos cortejos da Latada e da Queima das Fitas com os meios e ocasião para manter viva essa veia castigadora da Academia? “Quando o Mago apontou para a lua, o Parvo acusou o dedo…!”


