Geralopiniao

Opinião: “RUC: Liberdade e profissionalismo”

15 de às 11h00
0 comentário(s)

Sou da colheita de 1986, ano em que Portugal aderiu como Estado-Membro à União Europeia (UE); Nelson Mandela começava a negociar secretamente com o Governo sul-africano o fim do ‘apartheid’, e em que tive o privilégio de integrar a primeira equipa de locutores da Rádio Universidade de Coimbra (RUC), precisamente quando também iniciava as suas primeiras emissões regulares em FM, nos 100 MHZ.
No meio da tensão geopolítica que se vivia entre a União Soviética e os Estados Unidos e os seus respetivos aliados, o ano seguinte de 1987 foi igualmente significativo na grelha de programação da RUC, a primeira Rádio Universidade no Ar, no país, a terminar com o monopólio das “ondas hertzianas” pela estatal Rádio Difusão Portuguesa (RDP), porque introduzia, pela primeira vez, o serviço informativo “a todas as horas”.
Se gosto de música, se me apaixonei pela Rádio, e pelo Jornalismo independente, que o destino escolheu como profissão para a minha saída do país, em 1992, devo isso ao trabalho pioneiro de muitas pessoas que tornaram o sonho realidade, iniciado no final da década de 1980, na RUC, que considero ser o verdadeiro “berço da liberdade”.
As grelhas de programação em 1986 e 1987, onde a RUC me confiou a produção e apresentação dos “Encontros do Secundário”, nas tardes de sábado, produziram também uma família de talentos únicos que desenvolveu o panorama da rádio pública e privada portuguesa, à época.
Sem internet, telemóveis ou qualquer oferta de estudos superiores em Comunicação Social, muito menos em Jornalismo, a RUC possibilitou-nos a liberdade e os meios para se criar uma “arte de fazer rádio”, que foi inovadora, profissional, global e, principalmente, de pensamento crítico.
Na RDP e na Rádio Comercial, por exemplo, servia-se como referência “pão com manteiga” e as noites eram “longas” no FM Estéreo. Na RUC, havia “Noites de Moscovo”, “Trovas Lusas”, e “Fadas demónios e suas discretas razões”, e as notícias dos jornais eram sempre “do dia seguinte”. Lá fora, a BBC de Londres era a referência mundial, transmitindo em Ondas Curtas (SW).
O “relógio” de produção do “Encontros do Secundário”, com entrevistas, reportagens, “correspondentes” nos liceus da Cidade, e crónicas, salpicado com a melhor música que passava primeiro que o Scotch e a Via Latina, as duas casas de referência das noites de Coimbra, foi desenvolvido a partir do formato “magazine” britânico, para FM, que estudei a partir de manuais técnicos importados da Foyles, em Londres, através de pessoas amigas. Os discos chegavam-nos da capital britânica através de um DJ residente que se dedicava “à arte e ciência de passar discos”. Era habitual “lançar” primeiro o tema no programa, à tarde, aguçando o apetite para a noite no Scotch, para onde a romaria seguiria depois no final de “tardes memoráveis” na RUC!
Os anos de 1986 e 1987, na RUC, moldaram sólidas bases para um percurso profissional na escola do jornalismo de referência britânico, a partir de 1992, primeiro na rádio pública anglo-sul-africana SABC, ao serviço da qual viajei várias vezes com o líder histórico Nelson Mandela, seguido de uma década na BBC World Service ( 1997-2007 ), em Londres, onde fui também o primeiro jornalista a ingressar na redação da BBC News (Televisão), com passagens por África, Médio Oriente, Iraque e Washington, entre outros.
Curiosamente, o convite para ingressar na BBC de Londres, que surgiu primeiro em 1992, foi precisamente para apresentar as primeiras emissões em FM para África, no World Service [Serviço Mundial de Rádio da BBC], que até então transmitia em Onda Curta, por ser o único profissional com experiência em produção radiofónica, em formato FM.
Neste 36º Aniversário, gostaria de retribuir com um Grande Obrigado, RUC!
Que os próximos 40 continuem a ser a melhor referência no Jornalismo e na Arte de bem fazer Rádio!

Pode ler a opinião de Carlos Henriques, que reside na África do Sul, na edição impressa e digital do DIÁRIO AS BEIRAS

Autoria de:

Deixe o seu Comentário

O seu email não vai ser publicado. Os requisitos obrigatórios estão identificados com (*).


Geral

opiniao