Opinião: Ser turista em casa
Suponho que já estou na Bélgica há tempo demais para reparar em algumas características desta cidade. Com o tempo, desconfio que me devo ter habituado e sou agora mais imune a aspectos que contrastam com a realidade no nosso país, ou mais precisamente em Coimbra. Ou pelo menos fiquei mais fria, já encolho os ombros às coisas de que menos gosto, em vez de me revoltar ou fazer alguma coisa.
No outro dia um casal amigo veio a Bruxelas e, enquanto estava a trabalhar, tive o relato escrito de alguém que passeou pela cidade enquanto turista: “Passei por sítios bonitos, por bairros estranhos, por espaços algo decadentes. Fui abordada por duas pessoas que me queriam pedir indicações e uma que me queria pedir dinheiro. Houve pessoas que me sorriram e até disseram olá, houve várias pessoas que cuspiram (…) Confesso que o que me impressionou mais foi a selvajaria no trânsito. Este pessoal mete Lisboa num cantinho”
Nos dias, semanas seguintes fiquei a pensar neste relato. Tentei ver Bruxelas com olhos de turista. E Bruxelas é muito isto. Bairros exemplares e limpinhos, zonas decadentes e sujas, pessoas que nos abordam para pedir indicações ou dinheiro ou só para chatear, homens que cospem no chão com um à-vontade desconcertante, nabos no trânsito e pessoas agressivas. E sim, às vezes dou por mim a dizer “não” antes de ouvir o que quem me aborda tem para me dizer, e sei que tenho uma condução com alguma personalidade (obrigatória, senão não me safava no trânsito). Estarei a ficar belga?


