Opinião: Sociedade Digital: o poder da multitude prosumidora interventiva
A sociedade atual convive com tecnologias ligadas à Internet a todo o tempo. Estar conectado é uma condição básica da vida. O conceito de sociedade digital estende-se à universalidade dos utilizadores ligados e dependentes das tecnologias de comunicação e informação. Para os usufrutuários destas ferramentas, os dispositivos digitais são parte integrante e indissociável da prática quotidiana, aos quais recorrerem para realizar tarefas, equacionar problemas, comunicar, consumir, trocar, etc. Vislumbra-se, assim, no futuro, uma sociedade digital ímpar e ecuménica, amalgamando tudo o que a rodeia. De facto, as engenhocas são cada vez mais pequenas, portáteis e eficientes, permitindo o diálogo contínuo, em tempo real, com os restantes utilizadores presentes na rede. Esta é conceituada tradicionalmente como um conjunto de dispositivos eletrónicos de computação interligados por um sistema de comunicação digital e guiados por um conjunto de regras para partilhar, entre si, informação, serviços, recursos físicos e lógicos. As redes sociais são uma estrutura social composta por pessoas e organizações, conectadas por um ou vários tipos de relação, que compartilham valores e objetos comuns. As redes, neste sentido, não constituem outra forma de estrutura, mas quase são consideradas como uma não estrutura, no sentido de que parte da sua força está na habilidade e capacidade para fazer ou desfazer rapidamente as situações. Na estrutura de rede, os atores sociais caracterizaram-se mais pelas suas relações do que pelos seus atributos (género, idade, classe social, etc). São ainda plataformas marcadas pelos predicados de personalização e interatividade. O digital associa-se, ainda, a uma geração que cresce, desenvolve-se e forma-se no meio de uma revolução não só tecnológica, mas também comunicacional, dialogando, desde sempre, com símbolos de muitas culturas, que, no decurso do tempo, se interligam para facultar ao utilizador uma opinião formada sobre qualquer assunto, criando-se assim o chamado homem do intelecto, na designação de Karl Marx.
O consumidor cria uma relação de afeto com os dispositivos digitais, situação que permite a sua socialização na rede, que é o lugar onde se sente mais confortável. A saída e entrada no mundo digital permite ao consumidor tornar-se único e ganhar individualismo e protagonismo atributos valorizados como fundamento da ordem social e política. Verdadeiramente, o utilizador quer ser reconhecido por atributos singulares e, em simultâneo, ter o poder de escolha no contexto de uma sociedade com excesso de informação. As relações conquistadas na rede tornam-se, assim, para os indivíduos, cada vez mais importantes na sua vida, e, ao ponderá-las, não sentem a premência de criar relações na vida real. O utilizador estabelece intimidade, através da sua vida no ecrã, mas, perante as pessoas que fazem parte do seu espaço físico, sente-se em estado de solidão. É o conhecido paradoxo da distância: não se comunica com os seres humanos que estão próximos, mas com os que estão distantes. Ou seja, para se relacionar em rede, o utilizador precisa de se afastar dos que o rodeiam para estar em isolamento frontal com o seu dispositivo, assumindo ou parecendo reconhecer, que relações estabelecidas no contexto digital podem ser geridas mais facilmente do que as relações pessoais, que, em princípio, são mais complexas. O usufrutuário frequente da Internet, no século XXI, afastou-se do indivíduo passivo nos tempos precedentes. Deste modo, e, em virtude de estar inserido na sociedade, consome cultura de forma veloz. Não é somente um recetor de conteúdos distribuídos nos meios de comunicação em massa, mas é um prosumer, ou seja, prosumidor, neologismo que junta o produtor mais o consumidor ou o profissional mais o consumidor. O prosumidor, termo criado por Alvin Toffler, na década de 80, é atribuído à maioria dos utilizadores da Internet, dado estes escolherem os conteúdos a que querem aceder, interagem, compartilham, produzem e disseminam material múltiplo sobre qualquer temática. Acresce que, se esta nova entidade quiser destacar-se e tomar autoridade nas plataformas, deve ser criativa e conceber conteúdos relevantes, divertidos e atuais para competir com seus pares igualmente imaginativos. Funcionam, assim, no processo de transformação digital, como facilitadores de estágios de transformação digital. Em suma, o novo consumidor assumiu um papel de influenciador, o que não tem precedentes na história económica da humanidade. As recorrências desta perceção são diversas e com múltiplas ramificações, e presumivelmente tornarão as principais instituições da sociedade, a breve trecho, completamente obsoletas na sua relevância social e económica.


