Opinião: TAP e SNS – O valor da liderança
Nas últimas semanas, todos nós voltámos ao conhecimento da figura de Christine Ourmières-Widener, até há uns dias atrás CEO da TAP. A presidente executiva, que entrou na nossa companhia aérea em julho de 2021, acabou por ser agora demitida, por “justa causa”, por decisão do mesmo Governo que a tinha escolhido com base num “currículo muito relevante”. Demitida por incompetência? Parece que não, porque a TAP, praticamente falida na altura, acaba de anunciar lucros de 65,6 milhões de euros e receitas de 3,5 mil milhões no exercício de 2022, um novo recorde! Evidentemente, uma decisão política!
Todo começou com outra administradora, Alexandra Reis, que se tornou notícia no final do ano passado pela ‘milionária’ compensação que recebeu ao deixar a companhia. Tinha-lhe sido pedido que se demitisse. Porque era incompetente? Provavelmente, também não, mas aparentemente por não estar de acordo (‘choque de personalidade’) com a Christine, sua superiora.
Há aqui alguma semelhança entre os dois casos? Evidentemente, não – uma, a Christine era a chefe e a outra, Alexandra, subordinada. Tenho para mim que, neste caso, a primeira assumiu o seu papel de líder, ao tomar a decisão que pensava ser do melhor interesse da TAP. A segunda, que também era chefe de um outro setor da companhia, só poderia ter tido uma atitude correta, sair. Aliás, Alexandra Reis tinha posto o seu lugar à disposição em 2021 e poderia ter então saído da TAP sem qualquer indemnização.
Interessante é que há uns meses atrás a Alexandra era uma vilã que se apropriou ‘desavergonhadamente’ de (muito) dinheiro da TAP, isto é, dos portugueses, e agora passou a heroína, vítima de uma estrangeira qualquer que era apenas a diretora executiva. Permitam-me aqui dizer que nem considero que o pagamento que recebeu seja ilegítimo. Foi demitida, a lei dá-lhe direito a uma compensação, que foi negociada entre as partes. Tudo legal; não compreendo porque se diz que não.
Perguntarão agora os leitores o que é que isto tem que ver com os problemas do SNS, o meu tema costumado desta coluna de opinião. Tudo! Maria Domingas Carvalhosa, CEO da Wisdom Consulting, escreveu algures que “precisamos de menos chefes e mais líderes”. As duas palavras podem parecer sinónimos, mas são competências distintas no ambiente organizacional. O chefe é aquela figura autoritária que possui maior conhecimento técnico e que determina as atribuições dos seus subordinados. O líder é mais do que isso, inspira os outros a utilizarem as suas capacidades na prossecução do interesse comum. Para um líder, a capacidade de fazer com que as pessoas executem as suas tarefas através da comunicação e do trabalho em equipe. Um líder é um criador. Um chefe é o fazedor – recebe ordens dos superiores e transmite-as aos inferiores. Para mim, a Christine era a líder, a Alexandra uma chefe.
Este é o verdadeiro problema do SNS. Tem muitos chefes, de cima-abaixo, mas poucos líderes. Mas a grande questão é que neste nosso País a liderança não é incentivada; pelo contrário, é muitas vezes vilipendiada! E citando, de novo, Maria Domingas Carvalhosa, “a nossa elite não pode nascer nas associações de estudantes e nas juventudes partidárias. Há que incutir o espírito de serviço e de missão. A ética e a moral. E as boas práticas de liderança”. Serão estes líderes que trarão as soluções para um muito necessário aumento da produtividade.
Já por várias vezes aqui escrevi que o principal problema do SNS reside na deficiente gestão e resumem-se a uma palavra-chave – racionalidade. A deficiência de racionalidade deriva do facto de os nossos governantes, a todos os níveis, reagirem aos acontecimentos em vez de agirem preventivamente. E as decisões são quase sempre baseadas num ciclo político muito curto (em conformidade com o ‘politicamente correto’) e, naturalmente, sem se ter uma visão estratégica da evolução da sociedade, que necessita de medidas a longo prazo. Desta irracionalidade resulta a nossa baixíssima produtividade, na Saúde como em todas as outras áreas da nossa economia.
A grande maioria dos gestores do nosso SNS não têm as qualidades de liderança necessárias para gerir as grandes empresas que são os nossos hospitais. A maior parte são apenas comissários políticos, nomeados por razões políticas, partidárias. Estas considerações bem podem estender-se aos serviços hospitalares, com a diferença de que estes frequentemente nem sequer têm chefes, muito menos líderes.
“Vamos lá criar mais líderes e menos chefes”…


