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Opinião: Todos? Todos. Em liberdade

16 de às 10h09
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Os comentários do Papa são sempre amplificados muito para além do razoável. Talvez por isso (e muito mais), o Papa tenha recentemente brincado com uma idosa que lhe prometia orações, dizendo: “Bem preciso, este trabalho é louco!” Um dos casos mais dramáticos de ampliação irrazoável ocorreu logo no início do pontificado de Bento XVI, que no extraordinário discurso proferido na sua alma mater (a Universidade de Ratisbona), incluiu uma erudita, porém incauta, citação de um diálogo do séc. XIV entre um filósofo cristão e um filósofo muçulmano. O tom crítico dessa citação para com Maomé desencadeou ondas de ira entre os fundamentalistas islâmicos e levou a ataque a alvos cristãos na Palestina, no Iraque e na Somália.
O Papa Francisco, apesar de menos cauteloso na sua forma descontraída, mas séria, de se exprimir, tem felizmente uma receção em geral muito mais positiva. Contudo, tal não evita, naturalmente, que os Duponds e Duponts deste mundo abundantemente usem e abusem de tudo o que diz em favor das suas mundividências próprias.
Um exemplo recente é o comentário do Papa sobre a universalidade (catolicidade) da Igreja, no discurso proferido na cerimónia de acolhimento da Jornada Mundial da Juventude em Lisboa: “Todos, todos, todos! Na Igreja, há lugar para todos.” Logo o progressista Dupond, mais à esquerda, veio dizer que não era bem assim, porque a Igreja excluía muitos com o seu discurso. E o conservador Dupont, mais à direita, corroborou, pois de facto havia muitos que não eram benvindos.
A este propósito, talvez seja de recordar o episódio em que Cristo, crucificado no Calvário, interage com dois malfeitores, um dos quais (que a tradição conhece por Gestas) o insulta; já o outro, conhecido tradicionalmente por Dimas, replica “Quanto a nós, fez-se justiça, pois recebemos o castigo que as nossas ações mereciam; mas Ele nada praticou de condenável.” Jesus replica a Dimas: “Hoje estarás comigo no Paraíso”, transformando Dimas no único santo canonizado em vida e pelo próprio Cristo.
Camilo Castelo Branco ironizava que «presentemente a gente graúda, à imitação de Cristo, considera os bons ladrões dignos do céu; e que, desde o facto algum tanto reparável de ser perdoado um salteador com prejuízo de terceiro, todos os salteadores de “sobrado alto”, como lhes chama a Arte de Furtar, são, sobre perdoados, honrados.»
Se bem que Dimas e Gestas ambos partilhem a execução de atos violentos e a correspondentemente bárbara punição usada na época, encontram-se, porém, separados por uma pequena diferença. Dimas mantém a capacidade de, ainda que apenas em agonia, ser capaz de espreitar para além do perímetro do seu umbigo e ter um último olhar de amor pelo próximo. Talvez o Papa apenas quisesse sublinhar, com o seu comentário, que Gestas também era capaz de fazer o mesmo. Contudo, em liberdade de consciência, optou por não o fazer.
São Dimas, rogai por nós!

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