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Opinião: Tolstoy em Pretória

29 de às 12h35
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Esta semana, num fim de tarde ameno de outubro colorido pelas belas árvores de Jacarandá na capital sul-africana, a embaixada da Federação Russa na África do Sul dedicou a sessão de cinema deste mês ao filme “Anna Karenina” de 1967, realizado por Aleksandr Zarkhi, uma das 27 adaptações cinematográficas daquele que é considerado um dos monumentos da ficção realista do século XIX.
A presença e complexidade de Anna Karenina, em Pretória, a heroína do grande romance soviético de mais de 900 páginas de 1877 do escritor russo Leo Tolstoy, antecipava desde logo uma insatisfação inevitável, sendo a traição altamente provável.
No edifício da escola de hotelaria, construído há mais de oitenta anos para o administrador de um banco colonial britânico na capital sul-africana, a infidelidade não era casual ou discreta, como o seria para outras personalidades da alta sociedade de São Petersburgo à época, mas desamparada, urgente, terrivelmente intensa.
Do outro lado da rua, a videovigilância da representação diplomática fortificada da República Popular da China espreitava o eloquente ambiente de confiança entre os convidados de Moscovo, figuras simpáticas que conviviam telegraficamente com os finíssimos caviares russos degustados com os melhores vinhos no cocktail.
A relação desta pequena audiência com uma longa-metragem como “Anna Karenina”, denunciava um longo casamento desde as reviravoltas da Guerra Fria, ainda presente nesta região de África, à atual “purificação espiritual e penitência”, que aliás Gandhi já havia experimentado numa “Tolstoy Farm” que criou, entre 1908 e 1914, nos arredores do Soweto durante o seu movimento sul-africano.
Na interpretação de Zarkhi, o amor verdadeiro é trabalho árduo, e as ações têm consequências.
E é curioso notar que nem mesmo os americanos conseguiram abalar a poesia fluida de Tolstoy, que se tornou vegetariano em 1885, com o aviso emitido naquela tarde sobre um possível ataque terrorista no fim de semana em Joanesburgo, sem explicarem os pormenores às autoridades sul-africanas.

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