Opinião: Transição gémea, agora?
Com o verão a terminar, depois de um mês de agosto que foi o terceiro mais quente de sempre na Europa, os efeitos das alterações climáticas continuam a fazer-se sentir fortemente. São exemplo disso as cheias no Paquistão, classificadas por António Guterres como “carnificina climática”, com o secretário-geral da ONU a pedir aos países responsáveis por 80% das emissões de gases com efeito de estufa que ajudem os países que sofrem os efeitos da atividade humana noutras partes do globo.
Apesar desta emergência climática, coloca-se a questão de como conseguir, no atual contexto, alocar os recursos necessários à transição verde (e, em simultâneo, à transição digital), apelidada de transição gémea. Depois de dois anos de pandemia, vivem-se desafios muito exigentes, com uma inflação galopante, custos elevados de energia, escassez de matérias-primas. Um cenário que, por estes dias, obriga a colocar necessidades mais básicas no topo das prioridades.
A agressão militar da Rússia contra a Ucrânia tem tido grande impacto nesta transição gémea em muitos setores, desde logo fazendo subir os preços dos alimentos e ameaçando a segurança alimentar a nível mundial. Se por um lado pode vir a acelerar esta transição, reduzindo a dependência das importações russas de energia e materiais, pode, por outro lado, reduzir o financiamento disponível para investir devido ao aumento dos preços da energia e dos alimentos, aos investimentos na defesa, etc.
As tecnologias digitais podem tornar-se facilitadoras da transição verde até 2050, ano em que a UE pretende ser neutra do ponto de vista climático. Esta questão coloca-se a diversos sectores económicos com emissões elevadas de gases com efeito de estufa, da agricultura aos edifícios e construção, da energia e das indústrias de utilização intensiva de energia aos transportes e mobilidade. E, em cada um destes setores, é possível ligar as transições com soluções green-digital.
Sabemos o quanto as tecnologias digitais podem apoiar a transição verde de diferentes formas, dependendo de setor para setor. Na área agrícola, com uma melhor gestão dos sistemas para aumentar a produtividade através de aplicações mais racionais de água, energia, fertilizantes, rações. No setor dos edifícios e da construção, onde sabemos que a virtualização pode eliminar necessidades de espaço através de reuniões remotas, compras on-line. No sector da energia e em particular nas indústrias de energia intensiva, onde os sistemas de controlo e previsão fornecem informações sobre produtos e materiais utilizados para permitir uma melhor manutenção, reciclagem e reutilização. No sector da mobilidade e dos transportes, onde a simulação pode ajudar a otimizar fluxos de tráfego para limitar congestionamentos e poluição. Ou sob a forma de gémeos digitais, onde podemos simular todo o ciclo de vida de um produto ou processo, num processo de virtualização da produção e do consumo que reduz o impacto ambiental.
A transição gémea será a pedra angular para proporcionar um futuro mais sustentável, mais justo e competitivo. E o mundo deve fazer um esforço para manter esta transição no topo das prioridades, agora.


