Opinião: Trava-línguas, Trava-vidas e Transição Ecológica: as metáforas que desafiam a Vida
Desde muito jovens confrontamo-nos com os trava-línguas que desafiam as nossas habilidades. São verdadeiros exercícios para a nossa língua, pois exigem que dominemos a dicção e o ritmo, para superar o desafio proposto. Mas será que existe uma relação entre os trava-línguas e os desafios que enfrentamos nas nossas vidas diárias, onde nos encontramos com os trava-vidas e onde, também, se inclui o desafio da transição ecológica?
Os trava-vidas, termo com que cunhamos os desafios quotidianos subjacentes aos processos (como a burocracia, por exemplo) e aos seus agentes (os vigilantes desses processos que os reproduzem), que podem ser considerados obstáculos que nos testam em diferentes áreas da vida. Ao olharmos mais de perto, percebemos que tanto os trava-línguas quanto os trava-vidas partilham algumas características em comum. Ambos exigem prática e persistência para serem superados. Na vida cotidiana, enfrentamos desafios que requerem esforço contínuo, adaptabilidade e resiliência para serem vencidos, contra ventos e marés, não fosse a natureza uma metáfora primordial, neste caso, para sublinhar a dificuldade, o sofrimento que, ainda assim, não nos detém. E há pessoas fadadas para se atravessarem nos nossos caminhos impondo pedras e tornando-o continuamente mais difícil, por vezes até tortuoso. Dizem as teorias práticas que esta talvez seja uma forma de valorizarmos mais o percurso e aprendermos outras qualidades, evoluirmos enquanto seres humanos e, portanto, estas gentes prestam-se a um papel muito difícil que é o de nos ‘infernizarem a vida’. Mas no fim devemos estar-lhes gratos, porque isso nos melhora, nos abre ‘as portas dos céus’. E a esses trava-vidas, o que acontece? Ficam felizes porque é esse o seu desígnio?
Outra semelhança entre os trava-línguas e os trava-vidas é a importância da clareza na comunicação. Enquanto os trava-línguas nos desafiam a articular as palavras de forma precisa, os trava-vidas lembram-nos da importância de nos expressarmos de maneira clara e eficaz e nunca negligenciarmos isso. Além disso, tanto os trava-línguas quanto os trava-vidas têm um aspeto lúdico na sua essência. Os trava-línguas são frequentemente utilizados como jogos de palavras, estimulando a diversão e o entretenimento. Da mesma forma, os trava-vidas partilham desta dimensão, pois divertem muitas conversas do corredor da maledicência, onde a critica é diversão ou exorcismo, a partir dos quais podemos aprender e evoluir, numa atitude mais positiva e com menos sofrimento. O pior é quando estes/as trava-vidas estão em posições onde podem prejudicar muita gente de forma muito séria, e hoje em dia isso é muito comum. Sabermos identificar e travar os trava-vidas é também, por vezes, um desafio.
Os trava-línguas mostram-nos a importância da prática, da paciência e da superação de obstáculos linguísticos. Já os trava-vidas desafiam-nos a procurar soluções criativas, a persistir diante das adversidades e a desenvolver habilidades para lidar com as incertezas da vida, sem nunca ceder nem esmorecer. É muito cansativo!
Assim como nos trava-línguas e nos trava-vidas, os obstáculos à transição ecológica podem parecer difíceis de superar e serem insuportáveis até. São desafios que envolvem complexidades e multidimensionalidades, sejam culturais, políticas, económicas, tecnológicas, sociais. De facto, podemos encontrar uma série de barreiras, como interesses divergentes, visões opostas, falta de vontade política, resistência a mudanças, incertezas, entre muitos outros. Da mesma forma que um trava-vidas expressa um emaranhado de complicações e exibições dos seus micro-poderes, a transição ecológica desafia-nos com uma teia de obstáculos interligados. E os trava-vidas da transição ecológica concentram-se em criar problemas seja para inviabilizar ou para mostrar a imperfeição das soluções apresentadas, procurando impedir a sua implementação, por exemplo.
Se a transição ecológica requer inovação e ação transformadora, devemos explorar diferentes abordagens, ao nível das tecnologias, das políticas públicas, das parcerias entre setores e envolvimento da sociedade civil. Cada solução encontrada desembaraça-nos um pouco mais dos trava-vidas e permite-nos combatê-los, enquanto obstáculos à esperança e à consequente mudança transformadora de que precisamos, como de água para a vida. Da mesma forma que a prática e a repetição e a resiliência nos ajudam a dominar os trava-línguas e os trava-vidas, a persistência e o comprometimento são essenciais na transição ecológica. Nesta perspetiva, os trava-vidas são uma metáfora poderosa para a compreensão dos obstáculos à transição ecológica, que nos alerta para os desafios, que nos aviva a criatividade e nos recomenda a resiliência e a resistência como instrumentos-chave no caminho para a harmonia e equilíbrio entre sociedades e naturezas.


