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Opinião: Um CEO para a Saúde e o fim das hierarquias?

19 de às 11h39
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Num artigo recente, aproveitei para falar do papel das hierarquias nas nossas vidas e na organização das empresas e das organizações do Estado. Para além do facto de as culturas latinas gostarem particularmente da estratificação hierárquica, na verdade, muitas das nossas empresas e sobretudo a administração pública, fazem um uso intensivo deste modelo. No caso dos organismos do estado, associado a uma cultura de controlo e poder, transformou-se no auge da burocracia, muito para além da conotação que lhe deu Max Weber.
O peso da hierarquia vem já de longa data, enraizada e inspirada no modelo organizativa do exército e da Igreja. Todavia, ela está hoje particularmente associada a ineficiência, desresponsabilização (o que ela mais deveria evitar…), imobilismo, e a uma estranha incapacidade para entender o mundo, a vida e as pessoas, particularmente na administração púbica. O processo de vacinação contra a Covid 19, é um exemplo perfeito do choque de um certo modelo organizativo, com a realidade. Na verdade, o processo de vacinação começou na hierarquia do ministério e não funcionou, de todo. Todavia, uma vez abandonada a hierarquia, com a entrada do Almirante, que pôde coordenar discricionariamente os serviços necessários à prossecução dos objetivos de vacinação, o processo passou a exibir uma eficiência ímpar, com resultados aos quais não estávamos habituados. E estranhamente, tudo regrediu com a saída do Almirante e com o regresso à hierarquia do ministério.
Na verdade, esta troca da hierarquia por aquilo a que hoje chamaríamos algo parecido com Process Management, produziu resultados surpreendentes, num modelo igualmente surpreendente. Os serviços envolvidos, do ministério, das autarquias, da segurança interna, entre outros, mantiveram o seu modelo de funcionamento e a sua estrutura organizacional. Todavia, a vacinação, passou a funcionar de uma forma transversal, num sistema baseado na coordenação e integração de todos os elementos que fazem parte do processo, tendo como grande prioridade a rapidez na vacinação, a qualidade do processo e a satisfação dos vacinados. É todo um mundo novo no mundo da administração.
Foi por isso uma enorme surpresa a criação do atual cargo de CEO para o SNS, e em particular a sugestão para o seu potencial líder. Ainda que não conheça o novo estatuto do SNS ou a configuração escolhida para o cargo de CEO, há coisas que podemos desde já antecipar: Se ao cargo de CEO do SNS forem atribuídos o poder, as responsabilidades e as tarefas equivalentes aos do cargo de “CEO” da vacinação, antecipo desde já uma pequena revolução no funcionamento do SNS com resultados imediatos e fulgurantes. Também é fácil antecipar uma reação violenta dos diversos serviços que integram o SNS, e que não vão querer abdicar das suas prerrogativas e dos seus “pequenos poderes”. Ainda assim, se a aposta no CEO for séria e for acompanhada por um reforço do poder e peso político do cargo, não tenho dúvidas que com menos recursos será possível fazer muito mais e muito melhor. Os níveis de ineficiência técnica, em média, podem atingir os 40%, mesmo em empresas. Suspeito que na saúde em Portugal, esses níveis possam ser assustadoramente mais elevados. Acredito mesmo num enorme potencial de melhoria que pode levar a um aumento substancial dos standards, em muito pouco tempo, e a aumentos decisivos na eficiência e qualidade de serviço.
Todavia, também sei que a probabilidade de estarmos apenas a criar um novo cargo para desviar atenções, para ocupar mais “boys” e para fugir à essência do problema, é enorme. Esta tentação, associada à força das corporações, e ao imobilismo que serve os interesses instalados, pode na verdade fazer da criação do cargo de CEO para o SNS, um ato falhado.
Francamente, eu fico à espera de uma revolução. E a figura escolhida para este cargo reforça esta minha esperança. Entretanto, ficaremos neste limbo, entre a cosmética e a expectativa de uma enorme mudança, que devolva confiança e vida aos Portugueses. O Process Management está a chegar à saúde pela mão de alguns excelentes gestores de hospitais privados. Esta transposição para a esfera pública seria, para além de uma enorme surpresa, um avanço sem limites e sem precedentes, só experienciado com a passagem do nosso Almirante pelo processo de vacinação. Será que chegou o tempo dos “Almirantes” ao nosso país?

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