Opinião: Uma política de rendimentos e de salários mais justa Um maior respeito pelo trabalhodo setor social
A disparidade na distribuição de rendimentos continua a ser muito acentuada em Portugal.
Temos uma classe media, muito sobrecarregada com impostos, e com salários cada vez mais próximos do salário mínimo. As recentes subidas do salário mínimo sem a correspondente valorização de carreiras, tem levado a inúmeras situações de injustiça. Pessoas com largos anos de experiencia e formação passaram a ter um nível remuneratório igual ou ligeiramente superior ao de pessoas com menor formação e responsabilidade. No caso do Setor Social a tabela existente leva a que cerca de 70% dos profissionais tenham passado a auferir o salário mínimo. Os coordenadores têm salários pouco superiores a 1000 euros. Estas Instituições respondem a vários problemas da sociedade, substituindo o Estado na resolução dos mesmos. O governo quando faz o calculo das comparticipações a pagar por esses serviços, não tem considerado o impacto do aumento de custos que as instituições têm tido. Por outro lado, existem cada vez mais famílias com dificuldade em pagar comparticipações. As dificuldades financeiras, junta-se a desmotivação dos trabalhadores por sentirem a injustiça dos seus salários. Recentemente participei numa reunião onde estiveram vários dirigentes do Setor Social do Distrito que deram conta das enormes dificuldades financeiras que atravessam. Dirigentes que se entregam de alma e coração, em regime de voluntariado, às Instituições e que se vêm confrontados com todas estas dificuldades.
Vários destes dirigentes confidenciaram que se as politicas não se alterarem, terão de abandonar as funções. Trata-se de uma situação muito grave.
De acordo com o Relatório do Observatório Nacional de Luta contra a Pobreza (Outubro 2022 ), Portugal tinha 22,4% da população em risco de pobreza ou exclusão social, tendo passado a ser o 8º país da UE27 com maior proporção da população a viver este tipo de vulnerabilidade social e económica. Os resultados deste Inquérito demonstram igualmente um elevado aumento das desigualdades em Portugal, que se traduziu num aumento de 5,8% no coeficiente de Gini e de 13% no indicador S80/S20, que compara os rendimentos de 20% com rendimentos mais baixos e 20% com rendimentos mais elevados. Portugal surgiu como o Estado- membro com maior aumento dos níveis de desigualdades de rendimento. Ao mesmo tempo que a classe media se sente a empobrecer, toma conhecimento de gestores públicos e de grandes empresas com salário principescos. Num país que empobrece e se aproxima da cauda da Europa, este tipo de salários obscenos provoca revolta e agitação social.
Veja-se o caso recente da TAP. Alexandra Reis recebeu uma indeminização de meio milhão de euros pela sua saída da TAP e a CEO da empresa arrisca-se a receber um bónus de 3 milhões de euros.
Como social democrata, com um pensamento humanista, tenho imensa dificuldade em aceitar que numa mesma organização existam gestores com vencimentos centenas de vezes superiores ao salário médio dos restantes trabalhadores. Se uma organização tem sucesso isso deve-se à boa gestão, mas também ao desempenho dos restantes trabalhadores. É do conjunto de esforços que surge o sucesso. Tal como discordo de um nivelamento por baixo, ao nível do salário mínimo que faz lembrar os regimes comunistas, discordo profundamente de um modelo onde os gestores tem salários obscenos face aos restantes trabalhadores da empresa e do país.
O modelo atual tem de ser alterado de modo a criar um sistema mais justo que fomente o aumento da competitividade e o desenvolvimento económico. Esse objetivo só pode ser alcançado com trabalhadores motivados.


