Opinião: Uma solução à procura de um problema
Há duas frases célebres que ilustram bem a forma como, ao longo do tempo, a inovação tem sido incentivada mais vezes pelo desenvolvimento tecnológico do que pelas necessidades do mercado. Uma, datada já do início do séc. XX, quando Henry Ford, o inventor da produção em série do Ford T, modelo da marca que revolucionou a indústria automobilística, afirmava: “Se eu perguntasse aos meus clientes o que eles queriam, eles teriam dito: um cavalo mais rápido”. A outra, de Steve Jobs, o homem forte da Apple, que um dia terá dito “as pessoas não sabem o que querem antes de lhes mostrarmos”, ele que não confiava em estudos de mercado para definir o que os produtos da Apple deviam ser.
Ler as coisas antes de elas terem sido escritas é, no fundo, a missão destes visionários. Porque lançar tecnologias que não se imagina se o mercado quer, ou se se guiam pelas verdadeiras necessidades das pessoas é, naturalmente, um risco. Mais fácil e óbvio é apostar em algo cujo mercado seja, à partida, um negócio com vento pelas costas.
Várias tecnologias foram consideradas à frente do seu tempo por terem sido pensadas, desenvolvidas ou introduzidas antes de o mercado ou a sociedade estarem preparadas para a sua adoção generalizada. Já no século XV Leonardo da Vinci projetava uma máquina de voo semelhante ao que é hoje um helicóptero, o qual só pôde ser construído como o conhecemos agora quase 500 anos depois. Também os veículos elétricos tiveram a mesma dificuldade, com tentativas de comercialização que datam já do início do século XX quando a tecnologia era ainda muito limitada.
Exemplos de flops da tecnologia são muitos. Podemos considerar aqui as primeiras tentativas da realidade virtual na década de 1990 que eram caras e tinham capacidades gráficas muito limitadas, o que fez com que não conseguisse grande popularidade nessa altura. Recentemente, o Metaverso da Meta, lançado em 2022, uma extensão do mundo físico usando realidade virtual e aumentada e cujo interesse tem vindo a decair, com queixas de complexidade e de problemas técnicos. Ou dispositivos como os Google Glass, já descontinuados, um pequeno ecrã que se fixava acima do olho direito do utilizador e que resultou num reduzido interesse do público.
Quando vemos por exemplo o lançamento de novas tecnologias de realidade virtual e aumentada como o Apple Vision Pro (ver destaque), anunciado como o maior lançamento da história da Apple, questionamo-nos se será uma tecnologia que o mercado quer. Não se questiona a tecnologia em sim ou a sua qualidade, mas antes a sua utilidade. Não deveria a inovação ser menos incentivada pela tecnologia e mais pelas verdadeiras necessidades das pessoas?
Conseguindo uma adoção generalizada, naturalmente ninguém questiona a necessidade destas tecnologias. Um bom exemplo foi um telefone sem teclas, apresentado em 2007 por Steve Jobs. Uma inovação totalmente disruptiva à época porque tinha como grande novidade descartar as teclas físicas e criar um ecrã tátil, no qual se usava como dispositivo apontador, ao invés de uma caneta, algo totalmente “inovador” e que usamos há milhares de anos: os nossos dedos.


