Opinião: Victoria Amelina e todos os nomes que não quero esquecer
Victoria Amelina era uma escritora ucraniana que documentava crimes de guerra. Era romancista, ensaísta, poetisa e ativista de direitos humanos. Foi a fundadora de um festival de Literatura na região de Donetsk que o ano passado, em resultado da invasão russa, foi substituído pela iniciativa “Fight them with poetry”, que ajuda a abastecer o exército ucraniano. É autora de vários livros, entre eles “Fall Syndrome” e “Dom’s Dream Kingdom”, pelos quais ganhou o Prémio Joseph Conrad e um lugar de finalista do Prémio de Literatura da União Europeia. Nos últimos meses, estava a trabalhar no livro “War and Justice Diary: Looking at Women Looking at War”, que relata as experiências de guerra de várias mulheres ucranianas. Há uns dias, Victoria estava num restaurante que foi alvo de um ataque russo, no leste da Ucrânia. Os russos terão usado um míssil de alta precisão, sabendo que estavam a bombardear um local com vários civis. Victoria não sobreviveu aos ferimentos causados pelo bombardeamento. Morreu – ela e outras 12 pessoas (entre eles, quatro crianças). Outras 60 pessoas ficaram feriadas. Tinha 37 anos e um filho pequeno; estava naquele restaurante com uma delegação de jornalistas e escritores colombianos. A semana passada, Victoria tornou-se numa vítima de um crime de guerra, semelhante às das terríveis histórias que contou.
A guerra na Ucrânia começou em fevereiro de 2022. A ONU estima que, entre fevereiro de 2022 e fevereiro de 2023, o número de vítimas civis na Ucrânia já ultrapassava 21 mil: mais de 8 mil civis mortos e mais de 13 mil feridos. Estima-se que no total, em 12 meses de guerra, terão perdido a vida entre 30 mil a 40 mil civis (números não oficiais). No que diz respeito às perdas militares, estimam-se, aproximadamente, 150 mil baixas de cada lado.
Em fevereiro deste ano, este conflito já tinha provocado a fuga de milhões de pessoas (deslocados internos e para países europeus). A ONU classifica esta crise de refugiados como a pior na Europa desde a II Guerra Mundial. Cerca de 14 milhões de pessoas terão sido retiradas das suas casas, mas vários milhares de civis vivem ainda em cidades bombardeadas, em caves, sem água nem eletricidade, dependentes de ajuda humanitária. Ao longo dos últimos meses, temos lido relatos dos mais horríveis crimes de guerra e crimes contra a humanidade: execuções, violações, torturas e raptos de crianças, ataques a civis, bombardeamentos de maternidades, ataques a hospitais pediátricos. Parece valer tudo. Este é o resultado da guerra – um jogo em que todos saem derrotados.
Dias antes do bombardeamento, que acabaria por lhe ser fatal, Victoria Amelina escreveu no Twitter: “à noite, da minha varanda em Kiev, olhava para as bolas de fogo no céu e ouvia as explosões. Fui dormir sem ver as notícias. A guerra é quando já não conseguimos acompanhar as notícias, nem chorar por todos os vizinhos que morrem no nosso lugar, a alguns quilómetros de distância. Ainda assim, não me quero esquecer de aprender os nomes deles”. São milhares de vítimas, numa longa lista que inclui, também, personalidades do meio cultural: Volodymyr Vakulenko, poeta, escritor infantil e ativista; Oleksandr Kysliuk, historiador e tradutor de línguas clássicas; Oleksandr Shapoval, bailarino e professor de dança; Yuri Kerpatenko, músico e maestro, executado depois de se ter recusado a participar num concerto promovido pelos ocupantes da sua cidade.
E, agora, Victoria Amelina: romancista, ensaísta, poetisa e ativista de direitos humanos. Uma escritora que documentava crimes de guerra. Faulkner dizia que a literatura acende um fósforo no campo no meio da noite. E embora um fósforo não ilumine quase nada, permite-nos ver quanta escuridão há à nossa volta. Lembrei-me disto a propósito da trágica morte de Victoria: menos um fósforo na escuridão e o angustiante triunfo das sombras sobre a luz. A escuridão cega, principalmente quando deixa de nos incomodar. Mas eu também não me quero esquecer de aprender os nomes deles. Victoria Amelina. Digam o nome dela.


