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Opinião: “Os passadiços não nascem todos iguais”

16 de às 15h30
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Há um excesso de construção nas áreas naturais. E agora tem vindo pintada sob a forma de aumentar o usufruto da natureza. Ou seja, vem pintada de verde. Infelizmente a passadicite não é neutra, mesmo que o material seja razoavelmente biodegradável.
Um ângulo mais benévolo dirá que antes gastar nos passadiços que noutras coisas mais destrutivas. Mas este ponto de vista peca por não dar o devido destaque aos prejuízos de passadiços inúteis, tanto pelos recursos mal utilizados (financeiros e materiais) como pelos impactos locais e até ao próprio usufruto do local. Um passadiço pode “matar” a paisagem que quer
dar a conhecer. Um ponto prévio. Não há ninguém “anti-passadiços-ponto”, pelo menos não conheço. Como todas as soluções de construção os passadiços têm utilidade onde têm utilidade…
Quando tenho um ecossistema sensível, frágil e pretendo proporcionar acesso a esse ecossistema, uma das soluções é a construção de um passadiço elevado. Não é que não tenha impacto no ecossistema, porque tem sempre, mas, na análise ganhos/perdas, entre os ganhos em dar a conhecer e visitar e as perdas (mitigadas) pelo impacto da construção, um passadiço é uma solução interessante.
Daí que é uma solução bastante utilizada em algumas reservas naturais, em partes de trilhos de áreas mais sensíveis em que se deve criar distanciamento entre o observador e a coisa a observar. Também nos atravessamentos de dunas para acesso a praias, permitindo o não pisoteio das dunas. Claro que, aqui, uma coisa é fazer atravessamentos, outra é a instalação de uma “rede” de passadiços, muitas vezes a desenvolverem-se longitudinalmente em cima da crista dunar.
Neste caso já se mudou a função, já se alterou a análise acima referida, entre custos e benefícios.
E lá vamos para a moda dos passadiços pelos montes cujo objetivo é que sejam visitados os próprios passadiços. São os “passadiços-para-ir-ali-ver-umbaloiço-num-miradouro-com-vista-para-o-maiorpassadiço-da-região-geográfica-durante-unsmeses-pelo-menos- até-aparecer-outro-maior)”. E de algo que pode ter uma função passámos para algo que é o objecto da visita. Muitas vezes em cima de caminhos existentes que são interrompidos e destruídos. Sem qualquer respeito pela paisagem que se pretendia ar a conhecer, agora cheia de passadiços aos zigue-zagues para pontes que não levam senão à outra margem para dar a volta e regressar…
Há nesta questão um ângulo de psicologia que gostaria de ver desenvolvido. Associo o ir conhecer uma paisagem de montanha “caminhando pelos passadiços” a ir conhecer uma cidade deambulando pelo centro comercial. É um local com alguma segurança e menor risco, onde não nos perdemos. Onde nos é conferida alguma distância dos factores naturais. Vêmo-los ali, mas com a segurança de um corrimão entre nós. É como deambular num parque de diversões, pagamos bilhete e usamos o equipamento. Mas divago. É importante incentivar o acesso a áreas naturais? É, claro, tanto do ponto de vista da chamada educação ambiental como da própria qualidade de vida. A caminhada é das actividades mais baratas e das que melhor contribuem para uma saúde geral e para um envelhecimento activo e saudável.
Um investimento que pode ser feito é ao nível da marcação dos caminhos existentes, do seu levantamento, manutenção e identificação. Marcar complacas (para além das marcações padronizadas das grandes rotas (GR) e pequenas rotas (PR). Identificar com placas de direcção com tempos e distâncias. Ligados em rede, com municípios vizinhos. E divulgar: produzir materiais impressos, livros, guias. E monitorizar: saber quantas pessoas usam e porquê e porque outras não utilizam, e se consomem localmente e etc, etc.
Há um mundo a visitar sem precisar de passadiços. Reservemos os passadiços para onde são necessários

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