À Mesa com Portugal – “Caseirinho”
Quando me respondem que “é caseirinho” fico desconfiada. Simplesmente, porque parece-me que tal resposta nada esclarece, apenas confunde o consumidor não acrescentando valor ao produto. Percebo que, para a opinião comum, tal pode significar que foi feito em lugar doméstico e não numa unidade industrial e que, por tal, não segue o conceito de fabrico rápido ou uniformizado, mas que tem o toque da pessoa em causa, da receita que ela recebeu de alguém. Bom, tenho a dizer que a minha experiência não me permite acreditar nessa visão romântica do “caseirinho”. Para mim, é um engano.
Fujo tanto desse discurso e dessas vendedeiras como o diabo da cruz. Pois que, se nas pastelarias a necessidade de manter o equilíbrio financeiro obriga a que muitos ingredientes e procedimentos sejam substituídos por soluções rápidas e mais económicas, nessas senhoras que “fazem em casa” a situação não será muito diferente. É que elas, tal como as pastelarias precisam que o negócio renda e a habilidade em fazer contas não pode ficar dependente do princípio do respeito pela receita. É preciso ganhar dinheiro e pagar contas.
Então, que farinhas usam? Que fermento usam? Que ovos usam? Os caseirinhos? E, a manteiga? Que na maioria das vezes é margarina e de marca e origem indiferenciadas. E, o azeite? Que tantas vezes passa a óleo… Só se salva o açúcar e a canela. Acho!
Não falo das condições que, em muitas situações, esses doces são produzidos pois que, nesse capítulo, há ainda a crença de que “o que não mata engorda” e, por isso, deixo ao critério de cada um acreditar no que quer. Mas, precisamos estar atentos pois que muitas das nossas receitas andam a ser feitas, não com o que deveriam, mas com o que é mais rápido e barato.
É claro que não tem mal nenhum as receitas evoluírem. Tal é condição necessária para que as mesmas se mantenham, por isso, os acrescentos ou as reduções são o reflexo do respirar da receita. O grave é andarmos a comer margarina em vez de manteiga, óleo em vez de azeite e não sabermos. E porque a receita nos é vendida com a áurea do “caseirinho” e do “tradicional” o nosso espírito está disposto a aceitar a versão mitificada e não o real.
Podemos questionar a razão de tal. Sabemos que quem compra acha que um produto feito fora das unidades industriais e isento dos custos oficiais deve ser barato. E o consumidor nem se apercebe como tal é desvalorizar a receita, a arte culinária, a cultura associada àquele produto. Queremos pagar pouco. O problema é que o barato sai caro. Neste caso, para o sabor, para a saúde, para a valorização da gastronomia portuguesa.
Esta não pode ser uma zona cinzenta onde quem regula fecha os olhos, porque as entidades municipais precisam de quem continue a fazer a receita para mostrar num qualquer programa de televisão, e quem compra quer continuar a acreditar, mas tem de ser um espaço de ativismo pela defesa da nossa doçaria. Assunto, claro está, para outras conversas.
Um conselho, estejam atentos ao “caseirinho” e desconfiem do barato. Procurem saber o que andam a comer e estejam dispostos a pagar o valor que os produtos têm. Tenho a certeza de que o sabor e a saúde vão ganhar muito.


