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Opinião: À Mesa com Portugal – Mãos de Ouro

27 de às 14h17
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Que todos apreciamos boa comida, é uma certeza que ninguém põe em causa. Que todos gostam quando a refeição enche o estômago e consola a alma, ninguém discute. Enche-se a boca de elogios falando das mãos da cozinheira ou do cozinheiro. Mas, será que estamos dispostos a pagar o valor das mãos que trabalham a cozinha? Ou será que uma pitadazinha de hipocrisia não atravessa o nosso discurso quando falamos do preço da refeição deste ou daquele restaurante?
Sabemos que uma refeição não se faz só do valor da arte culinária, das mãos que fazem a cozinha. Há que olhar os produtos utilizados, as condições onde são cozinhados, os vinhos, o serviço e tantas outras variáveis. No entanto, quando fazemos as contas ao que comemos, nem sempre julgamos de forma precisa o valor de quem cozinhou. É como se fosse dado adquirido, é como se não fosse único, é como se tivesse que ser quase de graça.
É claro que, se formos a um restaurante com alguma distinção de guias gastronómicos não pensamos da mesma maneira. A nossa predisposição para pagar um valor elevado está lá. Nem se discute e até fica mal. Contudo, parece-me que ainda há alguma dificuldade em reconhecer o valor dos cozinheiros ou cozinheiras, sobretudo quando falamos de restaurantes de cozinha regional ou popular, ou quando estamos mais afastados dos grandes centros.
Não podemos ter dois pesos e duas medidas. Não interessa se estamos num restaurante de gestão familiar em que a esposa cozinha e o marido serve à mesa ou se estamos num restaurante em que a direção da cozinha é assegurada por um chefe e, no serviço de mesa, temos um chefe de sala.
Apesar de sabermos que existem diferenças, e é claro que existem, não podemos à boleia disso desvalorizar quem, na cozinha se esforça por colocar todo o sabor na panela. Não se pode discutir o preço e dizer com desdém que foi caro ou barato. Tanto uma situação como a outra têm um travo de desfaçatez. Se achamos que foi muito caro, se calhar, devíamos passar mais tempo a cozinhar e perceber o esforço que tal exige e o quanto é necessário para se ter mão para os cozinhados. Já os que acharam que foi barato, deviam estar calados e deixar na mesa o valor que considerariam justo e correto.
É que, mais do que parecer há que ser. Palavras bonitas leva-as o vento e as cozinheiras e cozinheiros precisam de reconhecimento. Não interessa se é o restaurante da esquina que pertence ao casal que veio do Minho, das Beiras, do Alentejo ou de Trás-os-Montes ou se é o restaurante a que se vai quando vamos em passeio para o nosso lindo interior. Reconhecer o valor das mãos que trabalham a cozinha é caminho para o reconhecimento da gastronomia portuguesa no seu todo e não só dos estrelados que aparecem nas capas de revista e programas de televisão. E se dizemos que são mãos de ouro, aquelas que fizeram a nossa refeição, que tal começar a pagar o preço justo?

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